sexta-feira, 13 de abril de 2012

Severino Cavalcanti e o Escândalo do Mensalinho

Em 2005, Severino Cavalcanti foi o protagonista principal do escândalo do mensalinho. Foto:Ed Ferreira/AE


O Deputado Federal, Severino Cavalcanti, pernambucano, do município de João Alfredo, região da zona da mata, protagonizou em 2005, o chamado, “escândalo do mensalinho”, que o obrigou a renunciar ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados e de Deputado Federal, um vexame e um episódio vergonhoso para a política pernambucana.

Severino Cavalcanti, nasceu em 18 de dezembro de 1930, é filho de um alfaiate e uma dona de casa, ele é um nordestino que venceu na vida por si próprio. Em 1946, embarcou num navio rumo à São Paulo, onde morou por dezessete anos, conheceu sua mulher, dona Amélia com quem mora até hoje e tem quatro filhos. Em 1963, retornou para sua cidade João Alfredo, foi vendedor de jóias, tornou-se uma pessoa muito conhecida e também muito querida na região. Por ser bastante popular, ganhou vários apelidos, entre eles, Biu do relógio e seu Zito, o lambuzinho de João Alfredo (lambu é um pássaro típico da região, que tem o pé roxo), apelido adquirido já na política, por fazer parte do grupo do pé roxo. Severino chegou a ser um próspero empresário, dono de uma fábrica de móveis e uma rede de lojas de eletrodoméstico, “a Majucana”, combinação dos nomes dos quatro filhos, Maurício, Júnior, Catharina e Ana. No entanto, todo este empreendimento veio a falir.   

Severino Cavalcanti ingressou na política  em 1964, pelo Partido Democrático Nacional (UDN), sendo prefeito de João Alfredo, depois foi deputado estadual de 1967 a 1995 e deputado federal de 1995 a 2005, quando ocorreu a denúncia do mensalinho que o obrigou a renunciá-lo. Ele passou por diversos partidos durante toda sua trajetória política, após o golpe militar, escolheu a ARENA, partido que deu sustentação ao regime. Com o fim do bipartidarismo, migrou por alguns partidos: PDS, PDC, PL, PPR, PFL e atualmente pertence ao Partido Progressista (PP). Em 1980, Severino Cavalcanti ganhou notoriedade quando delatou o padre italiano Vito Miracapillo, que havia se negado a celebrar duas missas no município de Ribeirão-PE, em comemoração a independência do Brasil. O padre Vito foi expulso do país.

Severino Cavalcanti em João Alfredo, sempre utilizou a política do assistencialismo, fundou a Associação Beneficente João Vicente Ferreira (nome de seu pai). Segundo Olga Cavalcanti, nora de Severino, informou que a entidade atende centenas de pessoas – Ajudamos  a marcar consultas, levamos e trazemos do hospital, damos todo tipo de assistência (ambulância, tijolos, dentaduras, etc). Em 2003, a entidade recebeu cem mil reais em verbas federais. Em 1994, Severino ganhou seu primeiro mandato de deputado federal com 31.000 votos. Já na eleição de 2002, teve mais de 80.000 votos. No campo moral, Severino Cavalcanti é a expressão do conservadorismo. Católico praticante. Defende com ardor as posições da igreja católica de combate ao homossexualismo e ao aborto. Costuma-se a se dirigir aos seus eleitores como – “Meus beatos”. Entre seus projetos, estão o de acabar com a imunidade parlamentar para crimes comuns, e instituir o “salário mãe-crecheira” destinado as mulheres carentes com filhos menores de seis anos.

Em janeiro de 2001, quando ocupava o cargo de Corregedor, na qual chegou a pregar a absorvição até de Hildebrando Pascoal, deputado cassado e acusado por picar seus adversários com uma serra elétrica. Severino apareceu numa lista negra do Banco Central que relacionava 18 deputados com cheques sem fundo, na época, ele tinha cinco cheques devolvidos.

Em 2005, parecia ser um ano glorioso para Severino Cavalcanti(PP), em fevereiro, disputou a eleição para Presidência da Câmara dos Deputados, e o que parecia pouco provável, aconteceu. Por 300 votos, contra 195 de Luiz Eduardo Greenhalgh do PT, Severino Cavalcanti, 74 anos, ganhou a eleição de um Partido dos Trabalhadores em crise, um duro golpe para o partido de Luiz Inácio Lula da Silva.

Severino Cavalcanti era conhecido como “rei do baixo clero”, por representar a maioria de deputados sem voz, sem articulação e, convenhamos, sem ideias. O Presidente da Câmara, na ocasião, iria administrar 17.000 funcionários e um orçamento de 2,3 bilhões de reais. Tinha prerrogativas que lhe proporcionava grande influência nos rumos do país. Ele é quem dava a última palavra sobre os projetos que seriam votados, com poderes de engavetar, por tempo indeterminado, as propostas que por ventura, contrariassem suas posições pessoais. Também era ele quem aprovava os relatores do projetos, o que lhe dava a possibilidade de indicar um parlamentar que compartilhasse da sua opinião sobre o assunto em pauta. Com esses poderes, o peso da opinião do presidente da câmara era altamente relevante. Seu primeiro-secretário era Inocêncio Oliveira, responsável  em cuidar do orçamento de 2,3 bilhões de reais, o problema é que Inocêncio como parlamentar, já se envolveu em grandes escândalos e de grande repercussão, como o de ter desviado dinheiro público, do DNOCS, para irrigar suas terras e também, já foi acusado de empregar mão-de-obra escrava em uma de suas fazendas, no Maranhão. Entre os anseios de Severino Cavalcanti, constavam, 70% de aumento para os deputados, noventa dias de férias e carro oficial para os 513 deputados federais.

Severino Cavalcanti, como presidente da câmara dos deputados, enfrentou um momento de turbulência  em Brasília, pois, iria presidir o processo de cassação de dezoito parlamentares acusados no “escândalo do mensalão”, esquema de caixa dois, onde deputados recebiam dinheiro das empresas de Marcos Valério, em troca de apoio ao governo. Entre os acusados, estava o deputado pernambucano do partido de Severino, Pedro Correia. O Presidente da Câmara dos Deputados, antes mesmo de ser denunciado, demonstrava-se ter receio do que poderia acontecer com ele, caso fosse responsável pela cassação de algum parlamentar do esquema do mensalão quando concedeu entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, dizendo que é menos grave receber dinheiro numa bolada só do que em forma de mesada, disse ainda, que financiar campanhas com dinheiro clandestino é um crime menor, razão pala qual defendeu que os acusados recebecem penas mais brandas, como censura ou repreensão, e não a dureza de uma cassação de mandato. A entrevista de Severino foi considerada de uma prova da inadequação moral e ética. Dias antes, Severino Cavalcanti passou por uma cena constrangedora em uma solenidade no Itamaraty, Severino foi agraciado com uma cobiçada comenda do governo, a Ordem de Rio Branco. Eram 140 homenageados e 139 foram aplaudidos, mas na hora que o presidente Lula entregou a comenda a Severino, o silêncio tomou conta do ambiente. Talvez fosse até melhor que houvesse uma vaia. Mas não. Houve silêncio e o constrangimento do Presidente da Câmara dos Deputados e a certeza de que o futuro de Severino seria obscuro.

O MENSALINHO- O empresário Sebastião Augusto Buani, era dono do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar do prédio anexo à Câmara dos Deputados, em Brasília. Em 2002, Buani quis prorrogar a licença para seu restaurante por mais algum tempo e procurou Severino Cavalcanti, que na época, era o primeiro-secretário e cuidava justamente desse tipo de assunto. Buani relata que conseguiu a prorrogação que queria, mas teve de desembolsar 40 mil reais para Severino e o deputado federal Gonzaga Patriota, do PSB de Pernambuco. Ele escreveu: “Insistiram tanto que paguei 40 mil. Entreguei 20 mil ao Severino e 20 mil ao Gonzaga.

A prorrogação veio na forma de um documento, assinado por Severino em abril de 2002, mas que não tinha nenhum valor legal. Era o documento mais escandaloso e comprometedor de toda essa história. Ali, num clandestino ato de ofício, Severino prorrogou a licença de Buani até 2005. Severino não tinha poderes para isso e, ao fazê-lo, produziu uma prova cabal das relações promíscuas que manteve com Buani.

Por sua vez, Gonzaga Patriota admitiu que foi procurado por Buani, mas negou ter recebido dinheiro do empresário. Severino Cavalcanti se defendeu – “Eu sou um homem experimentado. Tenho mais de quarenta anos de vida pública, mas não tenho a menor lembrança de ter assinado esse documento dando a prorrogação. O que pode ter acontecido é ter juntado esse negócio, ou alguém ter botado no meio dos documentos e eu ter assinado sem ler. Acredito que não tinha assinado, mas pode ser que, numa hora lá... Posso ter assinado. Alguém pode ter incluído nos documentos de maneira criminosa e mal-intensionado. Esse homem (Buani) é capaz de tudo”.

A RENUNCIA- Não adiantaram os argumentos mentirosos de Severino Cavalcanti. No dia 21 de setembro de 2005, com as galerias da Câmara dos Deputados tomadas por estudantes da Universidade de Brasília, esperaram o final do discurso de Severino vaiaram e xingaram bastante: “Vai embora Severino! Corrupto! Já vai tarde!”. Os seguranças da Câmara, precisaram usar da força para esvaziar as galerias. Resultado, três estudantes feridos. Chegava ao fim, após 219 dias no comando da Câmara, a era de Severino Cavalcanti, que deixou de forma vergonhosa e constrangedora o Planalto Central.
Em 2008, O Presidente Lula apoiou a candidatura de Severino Cavalcanti à Prefeito de João Alfredo. Foto: Amanda Rossi

Em 2006, Severino tentou eleger-se novamente deputado federal por Pernambuco, mas não obteve os votos necessários. Em 2008, ele venceu a eleição para prefeito do município de João Alfredo, batendo o candidato do PSDB, Sebastião Manoel, obtendo 8.632 votos. Eleitores esses, que concordam que político corrupto merecem a segunda chance ou mais.

Por: Jânio Odon de Alencar
Fonte: Revista Veja (jornalistas  Alexandre Oltramari e Otávio Cabral), Diário de Pernambuco e TRE-PE








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