Após 47 anos da primeira prova de pedestrianismo em Pernambuco. O cabo da PMPE, Marivaldo Sena, brilhou nas competições de corrida de rua, onde venceu diversas vezes. Ele foi destaque entre os anos de 1976 a 1989. Foto: Diário de Pernambuco.
O dia 3 de março de 1929, ficou marcado como
um dia histórico para o pedestrianismo em Pernambuco. Foi realizado no Recife,
a primeira corrida de rua da cidade e do Estado. Nesta época, os principais
eventos esportivos realizados no Recife eram o hipismo, o remo, a natação e o
futebol. Mas, já era possível também ver em clubes da cidade, principalmente os
de descendência inglesa e alemã, a realização da prática do rugby e do tênis.
Agora o que ninguém tinha visto ainda, era o pedestrianismo, na ocasião,
denominada “cross country”, onde sua principal característica é definida por
provas longas, praticados na natureza, em locais com grandes obstáculos e com
um grau de dificuldade muito grande para os atletas. O cross country foi
implantado nas escolas inglesas desde 1837.
No Recife, o que aconteceu de
fato, foi uma corrida de pedestrianismo com a marca de cross country, já que
foi um circuito de 10Km do Palácio do Campo das Princesas, no bairro de Santo
Antônio, com retorno no Largo da Paz, no bairro de Afogados, sem nenhum
obstáculo. Uma prova de resistência.
A ideia surgiu do ilustre
desportista, sr. Ramos de Freitas, que foi o organizador do evento, e teve o
apoio da Liga Pernambucana de Desportos Terrestres (LPDT), atual Federação
Pernambucana de Futebol. O patrocínio foi da Companhia de Bebidas Brahma, que
ofereceu dois troféus, um para o clube cujo atleta foi vencedor e outro para o
clube que mais inscreveu atletas para a competição. Distribuiu guaraná para
todos os participantes. O sr. Ramos de Freitas encaminhou a LPDT, uma medalha
de ouro, cinco medalhas de prata e quinze medalhas de bronze como premiação aos
primeiros melhores colocados.
As inscrições teve início no dia
19 de fevereiro do corrente ano, na Avenida Arquimedes de Oliveira, 956, no
bairro de Santo Amaro. Foram inscritos atletas dos clubes suburbanos afiliados
a Liga. O primeiro clube a inscrever seus atletas foi o Varzeano Sport Club, da
Várzea, que inscreveu sete atletas. Os demais clubes foram: Sport Club
Palmeira, Rio Corrente Futebol Club, Independência Futebol Club, Modesto Sport
Club, Fogão Sport Club, Mocidade Futebol Club, Afogadense Futebol Club, Centro
Reginaldo de Athetismo e Sport do Brum, Centro Esportivo da Encruzilhada, Pina
Sport Club, Centro Sportivo Barroso, Nacional Futebol Club, Centro Sportivo
Pharol, Associação Atlética Great Western, Associação Atlética Arruda, Cabo
Branco Futebol Club, Tegipió Sport Club, Fluminense Futebol Club, Monteirense
Sport Club, Íris Sport Club, Auto Sport Club, Atheniense Futebol Club, Sport
Club Concórdia. Foram inscritos 102 atletas, mais só participaram 85.
A inédita corrida começou às 7
horas e alguns minutos, pouco depois de um intenso temporal que caiu sobre a
Veneza Brasileira, a partida aconteceu no Palácio do Governo e seguiu pela
Alameda da Fronteira do Tesouro, Rua do Imperador Pedro II, Rua 1º de Março, à
direita pela Praça da Independência, Rua Barão da Vitória, Praça Joaquim
Nabuco, Rua da Concórdia, Praça Sergio Loreto, Rua Imperial, Largo da Paz em
Afogados, ponto de retorno. Retornando pela Rua Imperial, Rua Vidal de
Negreiros, Praça das Cinco Pontas, Rua das Calçadas, Pátio do Mercado de São
José, Rua da Penha, Pátio do Terço, Rua Duque de Caxias, Rua 1º de Março, Rua
do Imperador Pedro II, Praça da República até a chegada no Palácio do Governo.
O Jornal de Recife, de 3/3/1929, anuncia a primeira corrida de pedestrianismo de Pernambuco O Jornal do Recife de 5 de março
de 1929, terça-feira, estampou a seguinte manchete em sua página de esportes:
Recife assistiu pela primeira vez, uma grande corrida. Aspecto encantador das
nossas principais ruas. Da manhã tempestuosa, obteve grande brilhantismo o
“Cross Country” de domingo - e fez a
seguinte narrativa – “A manhã de domingo último, em que se ia realizar a maior
prova desportiva até então disputada nesta capital, foi tempestuosa. Grandes e
violentas chuvas caíram sobre a cidade, acompanhadas de trovões, relâmpagos e
faíscas elétricas, pouco depois das 6 horas, prejudicando de alguma forma o
êxito da sensacional prova.
Todavia foi brilhantíssima a
sensacional corrida, tipo Cross Country, levada a efeito pelo conhecido
sportman sr. Ramos de Freitas e oficializada pela Liga Pernambucana de
Desportos Terrestres. Serenado o temporal, às 7 horas e alguns minutos, já
estando no ponto de partida, alguns concorrentes, começou a cidade a movimentar-se, enchendo as
nossas ruas principais de grande massa popular para assistir ao espetáculo
inédito que, pouco depois, teria início. E um aspecto encantador apresentava a
cidade sobressaindo o elemento feminino.
Com a presença de 85 concorrentes
alinhados em frente do Palácio do Governo do Estado, o sr. Dr. Maviael do
Prado, presidente da LPDT, deu o sinal de partida. Largando todos na disputa do
título honroso do vencedor da prova, conquistando ricos troféus
Os que assistiram a partida dos
85 homens, notaram logo que a corrida seria disputadíssima”.
Na partida da prova o corredor
João Amaral (57), partiu na frente dos demais, porém, logo na Rua do Imperador
foi ultrapassado por José Luiz (01), do Varzeano, que seguiu na ponta até o
Cabanga, onde foi ultrapassado pelo corredor Antônio Roberto (92), mas logo que
chega na Ponte de Afogados é novamente ultrapassado pelo atleta do Varzeano,
José Luiz (01), que às 08:22, após 15 minutos de prova, faz o retorno de volta
no Largo da Paz, em Afogados, acompanhado de perto pelos corredores Antônio
Roberto (92) e Manuel Rodrigues (25). Ao chegar no Cabanga, Manuel Rodrigues
(25) assume a segunda colocação ao ultrapassar Antônio Roberto (92). No Pátio
do Mercado de São José, o corredor Álvaro Moreira Farias, assume a terceira
colocação ao ultrapassar Antônio Roberto (92), que desceu para a quarta
colocação. Na entrada da Rua Duque de Caxias, pela ordem, seguiam: José Luiz
(01), Manuel Rodrigues (25), Álvaro Moreira (62), Antônio Roberto (92) e José
Maria Moraes (08).
Ao se aproximar da Praça da
Independência, o corredor José Luiz (01), do Varzeano, passa mal e abandonou a
prova. O Jornal do Recife assim descreveu o episódio: ...um fato contristador
emocionou a multidão que aguardava o regresso dos corredores. O representante
do Varzeano, número 1, inscrito na grande prova, teve uma indisposição orgânica
e baqueou. Um associado do querido clube
da Várzea, que tinha por vezes, acompanhado-o, encorajando-o, correu, auxiliado
por populares, não o deixando cair. Imediatamente o dr. Ramos Leal, que
acompanhava a grande prova, desceu do seu automóvel para prestar-lhe os
necessários socorros médicos e conduzindo-o para seu carro, fez transportá-lo
incontinente para o Posto de Assistência Pública, afim de melhor ser medicado
por acadêmicos e enfermeiros, prestou-lhe carinhosamente, os socorros que
necessitava, aplicando-lhe injeções e calmantes. Concluiu.
Enquanto isso, a prova chegava ao
seu final. Às 08:41:16, o corredor do Fogão Sport Club, Manuel Rodrigues da
Silva (25) deixava seu nome registrado na história do pedestrianismo
pernambucano, como o primeiro vencedor dessa competição no Estado, completando
os 10 quilômetros com o tempo de 34:16:05. Ele que é natural de Caruaru- PE,
antes já havia participado de três competições fora do Estado, em Juiz de Fora
(MG), Distrito Federal (que era no Rio de Janeiro) e no Campo das Graças (BA).
Em segundo lugar ficou o corredor do Centro Sportivo Almirante Barroso, Álvaro
Moreira Farias (62) com o tempo de 36:08; em terceiro ficou o corredor do Sport
Club Palmeira, José Maria Moraes com o tempo de 38:25.
Uma banda de música recepcionou
os vencedores e o público com belíssimos
dobrados. O campeão recebeu a medalha de ouro das mãos do governador interino.
CURIOSIDADES
O corredor Pharáo Nascimento de
Oliveira (Nº 30) do Fogão Sport Club foi o último colocado da prova. Lembrando,
que muitos atletas não completaram a prova.
Manuel Zumba, um serralheiro,
resolveu entra na prova sem estar inscrito, quando faltava 2 Km para o
encerramento. O problema todo é que ele se empolgou tanto e acabou caindo e se
machucando, precisando ser medicado.
O corredor José Luiz (01), atleta
do Varzeano, que é natural de Taquaretinga-PE, que vinha liderando a prova até
a Praça da Independência e que passou mal e teve que ser socorrido para o
Pronto Socorro. Foi considerado “Campeão Moral”, recebendo medalha de consolo.
O corredor Adalberto Bezerra (04),
que chegou na 28ª colocação, só tinha 16 anos, sendo o atleta mais jovem da
competição.
Depois dessa competição,
existiram algumas competições de pedestrianismo pelo Estado, todavia, não
emplacou. Em 1934, o Clube Náutico Capibaribe, criou a Corrida da Fogueira, a
mais antiga e tradicional corrida de pedestrianismo de Pernambuco, apesar de
passar quase três décadas desativada, retornou em 1963 e continua até os dias
de hoje. O pedestrianismo está sacramentado no Estado, onde existe
diversas competições anuais.
Em 1981, José João da Silva, atleta do São Paulo, bicampeão da São Silvestre, ladeado por Daniel, atleta do Sport Recife; Marivaldo Sena, atleta da PMPE e o capitão-pm Paulo Fernando, do Centro de Educação da PMPE. Foto: Arquivo de Marivaldo Sena.
Equipe da PMPE que participaram da Corrida da São Silvestre, em São Paulo, no início dos anos de 1980. Foto: Arquivo de Marivaldo Sena.
Por: Jânio Odon/Blog Vozes da Zona Norte (DIREITOS RESERVADOS).
Fonte: Jornal de Recife, Jornal Pequeno, Diário de Pernambuco e Biblioteca Nacional/RJ.