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sábado, 28 de abril de 2012

O assassinato do Padre Henrique em 1969

Padre Henrique celebrando uma missa, ele foi assassinado na Cidade Universitaria, no Recife.


Terça-feira, 29 de maio de 1969, na sede da Arquidiocese de Recife e Olinda, o então arcebispo Dom Helder Câmara aguardava a confirmação sobre a identidade de um corpo , com tiros e marcas de tortura, encontrado nos arredores da Cidade Universitária. Outros amigos também se faziam presentes e, ao telefone, Dom Lamartine confirmava o que todos temiam: era sim o padre Antônio Henrique Pereira, 28 anos, coordenador da Pastoral da Juventude e professor de formação religiosa do colégio Marista do Recife, um dos mais tradicionais da cidade. O padre Henrique que tinha três anos e meio de sacerdócio, filho mais velho de uma família de onze irmãos, e o mais querido para o seu pai, José Henrique Pereira, de 52 anos, funcionário da DAC no aeroporto dos Guararapes.

Um crime, na falta de pistas seguras, como este, desperta logo uma pergunta: qual a razão? Dom Aloísio Lorscheider, secretário-geral dos bispos (CNBB), considerou “inexplicável, tendo em vista o conjunto da vida do padre, que era honesto e correto”. Dom Helder, desde o primeiro momento, sustentava ter sido um crime político, argumentava na época, que “se vinha notando um nítido interesse de eliminar as pessoas que eram jovens ou que trabalhavam junto à juventude”. Relacionou, inclusive, a morte do padre ao atentado sofrido, meses atrás, por Cândido Pinto, estudante de engenharia e Presidente da extinta União dos Estudantes de Pernambuco- baleado na coluna, que ficou paralítico. Falou também numa lista de trinta e duas pessoas- “ o meu nome mesmo era o primeiro da lista” – que correriam o mesmo perigo do padre Henrique.
O corpo do Pe. Henrique, sinais de tortura.

  Já havia sido avisado por pessoas amigas sobre as duas próximas: padre Zildo Rocha, Diretor do Seminário de Olinda, e o estudante Marcos Burle de Aguiar, cassado como estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal, onde foi presidente do Diretório Acadêmico. Dom Helder relutou em citar os dois nomes, afirmando ter medo de assustar os parentes das pessoas visadas. Mas disse que os atentados eram sempre precedidos de telefonemas anônimos de ameaças, como no caso de Cândido Pinto. A residência de Dom Helder também já havia sofrido dois atentados, onde inclusive metralharam a fachada da casa. Nas duas vezes, ele não se encontrava lá.

Dom Basílio Penido, prior do Mosteiro de São Bento, em Olinda, e presidente regional da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), não confirmou nem desmentiu que tratava-se de um crime político. Formado em medicina, assistiu à autópsia e afirmou que os ferimentos sofridos pela vítima foram todos acima do pescoço, que apresentava as marcas de uma corda. E disse: “Acredito que o padre Henrique não tenha sido enforcado, mas arrastado. A cabeça apresentava várias contusões e o ferimento de três tiros”. As declarações de Dom Basílio dava um ponto final nas especulações de que o padre havia sido castrado, dando origem à hipótese de um crime passional ou de vingança da honra. O diretor do Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança Pública, Bartolomeu Gibson, referindo-se também a perícia, disse ter conhecimento que o crime foi cometido por mais de duas pessoas e que o religioso chegou a oferecer resistência  antes da perder a vida.

Na noite de segunda-feira, 28/5/1969, quando foi visto pela última vez, o padre Henrique saía de uma reunião de pais e filhos, no bairro do Parnamirim, afastado do Centro, às 22h30. Recusou uma carona, dizendo: “Os meus não são os vossos caminhos”. 
Logo adiante, viram-no entrando numa perua Rural azul, ocupada por quatro desconhecidos. Na madrugada do dia seguinte, um morador próximo ao local onde foi encontrado o cadáver do padre contou que por  volta das duas ou três horas, ouviu alguns disparos de armas de fogo. 

Na quarta-feira, 30/5/1969, o padre Henrique foi sepultado. O cortejo fúnebre que levou o padre Henrique, saiu da igreja do bairro do Espinheiro até o cemitério do bairro da Várzea, num percurso de 10Km, houve incidentes entre acompanhantes e a polícia, que tentava abortar a manifestação em que se transformou o cortejo, com faixas de “Abaixo a Ditadura”. 
Dom Helder Câmara bastante emocionado durante o cortejo fúnebre até o cemitério da Várzea, todos acenavam com lenços brancos, no último adeus ao padre Henrique. Foto: Veja 

Em São Paulo, o Cardeal Arcebispo Dom Agnelo Rossi afirmava que quem matou o padre desejava implantar um clima de terror e insegurança no país, e pediu para que as autoridades apurassem seriamente as responsabilidades e que aplicassem as sanções devidas, disse ainda, que somente de forma honesta e leal era que se evitaria revoltas, demagogia ou aproveitamento político de fatos desagradáveis e que chocavam evidentemente a opinião pública.

TRINTA DIAS DEPOIS- O juiz Aluísio de Melo Xavier, Presidente da Comissão Judiciária de Inquérito sobre a morte do padre Henrique, foi visto quarta-feira, 25/6/1969, entrando no Cine Art-Palácio (que ficava na rua da Palma) para assistir “A verdade vem do alto”, filme sobre o milagreiro espírita Arigó. À tarde, naquele mesmo dia, tinha saído pelas ruas do Recife membros da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Prosperidade que, com bandeiras vermelhas e altos brados, condenavam a infiltração comunista no clero. Junto as portas de todas as igrejas e capelas do Recife, os quadros de aviso anunciavam para sexta-feira, 27/6/1969, a missa pelo trigésimo dia do falecimento do padre Henrique.

O estudante Rogério Matos Nascimento, 26 anos, toxicômano, morador da Rua da Baixa Verde, no bairro do Derby, foi preso como principal suspeito, preso em 27 de maio. O acusado tinha amizade com o padre e freqüentava sua casa, e que na madrugada do crime, que só se tornou público no dia seguinte, comunicou à sua namorada Elizabeth Ribeiro que o padre havia sido morto. O juiz afirmou que havia indícios de que Rogério seria o criminoso, mas que não havia provas suficientes para condená-lo. A Comissão foi formada pelo Governador Nilo Coelho quatro dias depois do crime, a 30 de maio. Mas só começou a funcionar a 6 de junho.

O balanço até então, não era muito animador, ela havia desistido de procurar a Rural branca e azul ou verde que deu carona ao padre horas antes do crime, porque o Departamento de Trânsito descobriu uma longa lista de Rurais desaparecidas em Pernambuco. Com muito esforço, a polícia havia conseguido descobrir no Rio Grande Norte o provável dono da corda de pescar encontrada junto ao cadáver. Mas a Comissão concluiu que o homem nada tinha a ver  com o crime, nem a corda que foi deixada perto do corpo só para atrapalhar.

O SUSPEITO- Na cela 13 do Raio Sul da penitenciária, Rogério Matos do Nascimento, olhos verdes fundos e rosto estático, repetia: “Eu sou inocente”. De família rica, seu pai na ocasião,era sócio de uma empresa comercial e dono de vários imóveis. Rogério, em 1967, saiu da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para o quarto período de Economia da Universidade Católica (UNICAP), mas trancou a matrícula e só voltou às aulas este ano. Em fevereiro, o padre Paulo Soares, Diretor da Faculdade, recebeu carta anônima com um recorte do jornal que contava a detenção de Rogério por tráfico de entorpecentes. O padre anula então a matrícula do jovem.

Antes disso, contou Álvaro da Costa Lima, ex- Secretário de Segurança Pública, anticomunista ardoroso e adversário de Dom Helder Câmara, Rogério quis tornar-se auxiliar da polícia: “Conheci Rogério quando eu era delegado do DOPS. O moço era estudante e me procurou duas vezes, querendo ser meu informante na Universidade Federal, dizendo possuir o nome de muitos estudantes subversivos. Pedi, nas duas vezes, uma declaração por escrito. Depois desse pedido, ele não voltou mais e nunca mais o vi”.

O advogado de Rogério, Boris Trindade, que tinha 31 anos, ex-porteiro do Teatro Almare e ex-colunista social. Pierre era considerado hippie por causa de seus sapatos mocassinos e seus cabelos compridos, queixava-se de que o advogado da família do padre, Fernando Tasso, tenha participado do inquérito junto com a Comissão. Tasso já foi acusador de Rogério, num processo por estupro e, num encontro na prisão, foi esbofeteado pelo estudante. A participação de Tasso no inquérito, entretanto, foi legal e ele mesmo lembrou: “Em 1945, mataram meu irmão e os advogados de papai acompanharam todas as investigações”. Tasso e Trindade concordavam em algumas coisas: “As forças policiais do Estado estão falidas, A polícia de Pernambuco só sabe que Caim matou Abel por causa da marchinha, porque nem na bíblia ela foi investigar”, alfinetou Trindade. Ambos opinaram também que o exército tinha o máximo interesse na elucidação do crime”. Novos boatos surgiram no Recife, na semana passada, começou a ser dito que o padre Henrique, numa conferência, teria acusado o vereador Wandenkolk Wanderley, velho inimigo de Dom Helder, de ser dono de 80% dos prostíbulos recifenses. Wandenkolk tranqüilo respondeu: “O padre foi morto pela gang da bolinha, essa juventude criada por Dom Helder.

No final de março de 2004, foi lançado um vídeo produzido pelos estudantes de jornalismo da UNICAP, Shirley Pacheco, Lana Reis e Bruno Moreira, intitulado “Memórias de um tempo sem memória”, muito interessante onde até o major Ferreira (do Escândalo da Mandioca) foi citado como acusado do crime que abalou o Recife e até hoje não foi elucidado. 

Por: Jânio Odon de Alencar 
Fonte: Diário de Pernambuco e Revista Veja         


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Severino Cavalcanti e o Escândalo do Mensalinho

Em 2005, Severino Cavalcanti foi o protagonista principal do escândalo do mensalinho. Foto:Ed Ferreira/AE


O Deputado Federal, Severino Cavalcanti, pernambucano, do município de João Alfredo, região da zona da mata, protagonizou em 2005, o chamado, “escândalo do mensalinho”, que o obrigou a renunciar ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados e de Deputado Federal, um vexame e um episódio vergonhoso para a política pernambucana.

Severino Cavalcanti, nasceu em 18 de dezembro de 1930, é filho de um alfaiate e uma dona de casa, ele é um nordestino que venceu na vida por si próprio. Em 1946, embarcou num navio rumo à São Paulo, onde morou por dezessete anos, conheceu sua mulher, dona Amélia com quem mora até hoje e tem quatro filhos. Em 1963, retornou para sua cidade João Alfredo, foi vendedor de jóias, tornou-se uma pessoa muito conhecida e também muito querida na região. Por ser bastante popular, ganhou vários apelidos, entre eles, Biu do relógio e seu Zito, o lambuzinho de João Alfredo (lambu é um pássaro típico da região, que tem o pé roxo), apelido adquirido já na política, por fazer parte do grupo do pé roxo. Severino chegou a ser um próspero empresário, dono de uma fábrica de móveis e uma rede de lojas de eletrodoméstico, “a Majucana”, combinação dos nomes dos quatro filhos, Maurício, Júnior, Catharina e Ana. No entanto, todo este empreendimento veio a falir.   

Severino Cavalcanti ingressou na política  em 1964, pelo Partido Democrático Nacional (UDN), sendo prefeito de João Alfredo, depois foi deputado estadual de 1967 a 1995 e deputado federal de 1995 a 2005, quando ocorreu a denúncia do mensalinho que o obrigou a renunciá-lo. Ele passou por diversos partidos durante toda sua trajetória política, após o golpe militar, escolheu a ARENA, partido que deu sustentação ao regime. Com o fim do bipartidarismo, migrou por alguns partidos: PDS, PDC, PL, PPR, PFL e atualmente pertence ao Partido Progressista (PP). Em 1980, Severino Cavalcanti ganhou notoriedade quando delatou o padre italiano Vito Miracapillo, que havia se negado a celebrar duas missas no município de Ribeirão-PE, em comemoração a independência do Brasil. O padre Vito foi expulso do país.

Severino Cavalcanti em João Alfredo, sempre utilizou a política do assistencialismo, fundou a Associação Beneficente João Vicente Ferreira (nome de seu pai). Segundo Olga Cavalcanti, nora de Severino, informou que a entidade atende centenas de pessoas – Ajudamos  a marcar consultas, levamos e trazemos do hospital, damos todo tipo de assistência (ambulância, tijolos, dentaduras, etc). Em 2003, a entidade recebeu cem mil reais em verbas federais. Em 1994, Severino ganhou seu primeiro mandato de deputado federal com 31.000 votos. Já na eleição de 2002, teve mais de 80.000 votos. No campo moral, Severino Cavalcanti é a expressão do conservadorismo. Católico praticante. Defende com ardor as posições da igreja católica de combate ao homossexualismo e ao aborto. Costuma-se a se dirigir aos seus eleitores como – “Meus beatos”. Entre seus projetos, estão o de acabar com a imunidade parlamentar para crimes comuns, e instituir o “salário mãe-crecheira” destinado as mulheres carentes com filhos menores de seis anos.

Em janeiro de 2001, quando ocupava o cargo de Corregedor, na qual chegou a pregar a absorvição até de Hildebrando Pascoal, deputado cassado e acusado por picar seus adversários com uma serra elétrica. Severino apareceu numa lista negra do Banco Central que relacionava 18 deputados com cheques sem fundo, na época, ele tinha cinco cheques devolvidos.

Em 2005, parecia ser um ano glorioso para Severino Cavalcanti(PP), em fevereiro, disputou a eleição para Presidência da Câmara dos Deputados, e o que parecia pouco provável, aconteceu. Por 300 votos, contra 195 de Luiz Eduardo Greenhalgh do PT, Severino Cavalcanti, 74 anos, ganhou a eleição de um Partido dos Trabalhadores em crise, um duro golpe para o partido de Luiz Inácio Lula da Silva.

Severino Cavalcanti era conhecido como “rei do baixo clero”, por representar a maioria de deputados sem voz, sem articulação e, convenhamos, sem ideias. O Presidente da Câmara, na ocasião, iria administrar 17.000 funcionários e um orçamento de 2,3 bilhões de reais. Tinha prerrogativas que lhe proporcionava grande influência nos rumos do país. Ele é quem dava a última palavra sobre os projetos que seriam votados, com poderes de engavetar, por tempo indeterminado, as propostas que por ventura, contrariassem suas posições pessoais. Também era ele quem aprovava os relatores do projetos, o que lhe dava a possibilidade de indicar um parlamentar que compartilhasse da sua opinião sobre o assunto em pauta. Com esses poderes, o peso da opinião do presidente da câmara era altamente relevante. Seu primeiro-secretário era Inocêncio Oliveira, responsável  em cuidar do orçamento de 2,3 bilhões de reais, o problema é que Inocêncio como parlamentar, já se envolveu em grandes escândalos e de grande repercussão, como o de ter desviado dinheiro público, do DNOCS, para irrigar suas terras e também, já foi acusado de empregar mão-de-obra escrava em uma de suas fazendas, no Maranhão. Entre os anseios de Severino Cavalcanti, constavam, 70% de aumento para os deputados, noventa dias de férias e carro oficial para os 513 deputados federais.

Severino Cavalcanti, como presidente da câmara dos deputados, enfrentou um momento de turbulência  em Brasília, pois, iria presidir o processo de cassação de dezoito parlamentares acusados no “escândalo do mensalão”, esquema de caixa dois, onde deputados recebiam dinheiro das empresas de Marcos Valério, em troca de apoio ao governo. Entre os acusados, estava o deputado pernambucano do partido de Severino, Pedro Correia. O Presidente da Câmara dos Deputados, antes mesmo de ser denunciado, demonstrava-se ter receio do que poderia acontecer com ele, caso fosse responsável pela cassação de algum parlamentar do esquema do mensalão quando concedeu entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, dizendo que é menos grave receber dinheiro numa bolada só do que em forma de mesada, disse ainda, que financiar campanhas com dinheiro clandestino é um crime menor, razão pala qual defendeu que os acusados recebecem penas mais brandas, como censura ou repreensão, e não a dureza de uma cassação de mandato. A entrevista de Severino foi considerada de uma prova da inadequação moral e ética. Dias antes, Severino Cavalcanti passou por uma cena constrangedora em uma solenidade no Itamaraty, Severino foi agraciado com uma cobiçada comenda do governo, a Ordem de Rio Branco. Eram 140 homenageados e 139 foram aplaudidos, mas na hora que o presidente Lula entregou a comenda a Severino, o silêncio tomou conta do ambiente. Talvez fosse até melhor que houvesse uma vaia. Mas não. Houve silêncio e o constrangimento do Presidente da Câmara dos Deputados e a certeza de que o futuro de Severino seria obscuro.

O MENSALINHO- O empresário Sebastião Augusto Buani, era dono do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar do prédio anexo à Câmara dos Deputados, em Brasília. Em 2002, Buani quis prorrogar a licença para seu restaurante por mais algum tempo e procurou Severino Cavalcanti, que na época, era o primeiro-secretário e cuidava justamente desse tipo de assunto. Buani relata que conseguiu a prorrogação que queria, mas teve de desembolsar 40 mil reais para Severino e o deputado federal Gonzaga Patriota, do PSB de Pernambuco. Ele escreveu: “Insistiram tanto que paguei 40 mil. Entreguei 20 mil ao Severino e 20 mil ao Gonzaga.

A prorrogação veio na forma de um documento, assinado por Severino em abril de 2002, mas que não tinha nenhum valor legal. Era o documento mais escandaloso e comprometedor de toda essa história. Ali, num clandestino ato de ofício, Severino prorrogou a licença de Buani até 2005. Severino não tinha poderes para isso e, ao fazê-lo, produziu uma prova cabal das relações promíscuas que manteve com Buani.

Por sua vez, Gonzaga Patriota admitiu que foi procurado por Buani, mas negou ter recebido dinheiro do empresário. Severino Cavalcanti se defendeu – “Eu sou um homem experimentado. Tenho mais de quarenta anos de vida pública, mas não tenho a menor lembrança de ter assinado esse documento dando a prorrogação. O que pode ter acontecido é ter juntado esse negócio, ou alguém ter botado no meio dos documentos e eu ter assinado sem ler. Acredito que não tinha assinado, mas pode ser que, numa hora lá... Posso ter assinado. Alguém pode ter incluído nos documentos de maneira criminosa e mal-intensionado. Esse homem (Buani) é capaz de tudo”.

A RENUNCIA- Não adiantaram os argumentos mentirosos de Severino Cavalcanti. No dia 21 de setembro de 2005, com as galerias da Câmara dos Deputados tomadas por estudantes da Universidade de Brasília, esperaram o final do discurso de Severino vaiaram e xingaram bastante: “Vai embora Severino! Corrupto! Já vai tarde!”. Os seguranças da Câmara, precisaram usar da força para esvaziar as galerias. Resultado, três estudantes feridos. Chegava ao fim, após 219 dias no comando da Câmara, a era de Severino Cavalcanti, que deixou de forma vergonhosa e constrangedora o Planalto Central.
Em 2008, O Presidente Lula apoiou a candidatura de Severino Cavalcanti à Prefeito de João Alfredo. Foto: Amanda Rossi

Em 2006, Severino tentou eleger-se novamente deputado federal por Pernambuco, mas não obteve os votos necessários. Em 2008, ele venceu a eleição para prefeito do município de João Alfredo, batendo o candidato do PSDB, Sebastião Manoel, obtendo 8.632 votos. Eleitores esses, que concordam que político corrupto merecem a segunda chance ou mais.

Por: Jânio Odon de Alencar
Fonte: Revista Veja (jornalistas  Alexandre Oltramari e Otávio Cabral), Diário de Pernambuco e TRE-PE








sábado, 31 de março de 2012

A expulsão do padre Vito Miracapillo do Brasil

O padre Vito Miracapillo deixa a Matriz de Ribeirão, com destino à Brasília sobre forte comoção dos fiéis. Foto: Diário de Pernambuco.


Ribeirão, 1980- A pequena cidadezinha da mata-sul pernambucana, distante 82 Km do Recife, tinha como pároco, o padre italiano, Vito Miracapillo, que havia chegado de sua cidade natal, Andria, em 1975. Padre Vito, filho de uma família de padeiros, era um fiel seguidor dos ensinamentos do Vaticano II, concílio que provocou  uma reviravolta na igreja católica e ajudou a sedimentar o pensamento da ala progressista, que tinha dom Helder Câmara como um dos expoentes. Na América Latina, os bispos fizeram a “opção preferencial pelos pobres”. As provas do comprometimento do sacerdote com essa proposta estavam explícitas na forma em que ele organizava a comunidade e nos seus escritos: “ A miséria  e a desolação de quase a totalidade da população estão em escandaloso contraste com a fertilidade da terra”, avaliou logo ao chegar em Ribeirão, quando se encantou com a natureza, a alegria e a hospitalidade das pessoas. Chegou à cidade em plena ditadura militar, onde a censura prevalecia, faltava pão para o povo, a pobreza era absoluta. Padre Vito, estava convicto que era preciso fazer algo em defesa daquele povo sofrido. Então, criou a Pastoral voltada para o povo, comunidades de bairros de periferia da cidade e do campo.

Com a pastoral, padre Vito Miracapillo contraiu para si, vários desafetos, poderosos da região, como políticos e senhores de engenho. A pastoral mobilizava os agricultores, por melhores condições de trabalho e lutava pela reforma agrária e desapropriação das terras não produtivas.

Todavia,  o padre Vito Miracapillo tornou-se o inimigo numero um dos poderosos da região da mata-sul, em 1977, quando decidiu apoiar os trabalhadores da Usina Caxangá. As terras da usina tinham sido distribuídas pela União como pagamento pelos débitos trabalhistas, mas foram sendo renunciadas pelos trabalhadores à medida que a Cooperativa Integrada de Reforma Agrária (CIRA), responsável pela administração da área, dificultava o transporte da cana e aumentava as taxas cobradas sobre a produção.

O estopim estava armado. A iniciativa de organizar os trabalhadores, inquietou a direção da CIRA, que desconfiava das orientações do padre aos camponeses e o fato de Vito Miracapillo acompanhá-los na busca de apoio para reaver suas terras. O padre começou a ser observado mais de perto e os camponeses pessoalmente por pistoleiros. A Escola do Engenho Progresso foi fechada pelo prefeito para que o padre Vito não realizasse, no interior da Escola, missas e principalmente reuniões.

Em meio a acusações mútuas, o INCRA resolveu averiguar as denúncias de irregularidades. Constatou-se que 350 famílias com direito à terra moravam na área  da usina , mas haviam ganho a posse  e que “boa parte dela se encontrava nas mãos de pessoas que não estavam diretamente ligados ao Projeto Caxangá, como vereadores, dentistas, proprietários de terra, funcionários do governo, comerciantes”. O mais grave: encontrou-se parcelas com até 160 hectares, quando o projeto previa no máximo 30 hectares.

A balança, no final de agosto, parecia pender para os trabalhadores e os donos dos canaviais preocupavam-se com os boatos de uma greve geral.

Nesse cenário, o padre Vito, recebeu um ofício da Prefeitura de Ribeirão, solicitando a realização de duas missas, uma no dia 7, e outra, no dia 11 de setembro, em homenagem a semana da independência do Brasil. O padre Vito Miracapillo chegara a conclusão, que era o momento de expressar sua insatisfação de forma impactante, registrando por escrito, as razões da recusa em rezar as missas em um ofício destinado ao prefeito Salomão Correia Brasil “Ao prezado prefeito... À distinta Câmara Municipal. Tendo recebido ao convite para as solenidades da semana da pátria, faço ciente aos Exmos. Srs. de que não será celebrada a missa de ação de graças no dia 7 e no dia 11, na forma e no horário anunciados. Isto por vários motivos, entre os quais a não efetiva independência do povo, reduzido à condição de pedinte e desamparado em seu direito.”
Severino Cavalcanti, o delator. foto: Silvio Ferreira/Veja.

A recusa do padre Vito, foi o estopim para a crise entre o governo e a igreja católica, foi também, o momento certo para os desafetos do padre aproveitarem da situação e descartar de vez, o religioso da região. O deputado estadual pelo PDS, Severino Cavalcanti (aquele do escândalo do mensalinho, de 2005) foi o porta voz. O deputado encaminhou para a mesa diretora da Assembléia Legislativa de Pernambuco, um apelo ao ministro da justiça, Ibraim Abi- Ackel, pela expulsão do padre Vito Miracapillo.

Severino Cavalcanti na ocasião, comentou: “O padre Vito, tem se distinguindo pela sua ação subversiva na região da mata sul, e agora, para coroar a sua posição e dar uma satisfação a Gregório Bezerra e a Moscou (comunistas), deixar de celebrar, cumprir seu dever de sacerdote, recusando-se a prestar assistência espiritual aos seus paroquianos”. Adiantou ainda: “O pedido ao ministro da justiça é no sentido de ser apurada a atitude antipatriótica do padre católico, enquadrando-o nos artigos do Estatuto dos Estrangeiros, a cuja transgressão se pune com a expulsão do país, punindo assim a este mau sacerdote que está desservindo à igreja, à família e ao Estado, ensejando a perturbação da ordem pública em Ribeirão”. 

Depois que a noticia correu por Ribeirão que o padre Vito Miracapillo seria expulso do país, dezenas de fiéis invadiram a Matriz de Santa’ana para rezar pelo pároco, sobre forte emoção e muito choro.   

O caso do padre Vito Miracapillo, ganhou repercussão em todo o país e no exterior e causou grande desconforto entre a igreja católica e o governo militar. A avalanche chegou ao Palácio do Planalto no começo de setembro, impulsionada por um jornal em que o Presidente da República, João Batista Figueiredo leu o desafiador ofício do padre Vito. A 7 de setembro, no palanque armado no eixo monumental  de Brasília. Figueiredo queixou-se do padre a dom Carmine Rocco (núncio apostólico) e informou que ao governo não restava alternativa além do decreto de expulsão. A menos, ressaltou o presidente, que a remoção do padre fosse discretamente antecipada pelo Vaticano. Situação esta, que não veio a acontecer.

Os advogados do padre Vito Miracapillo, entre eles, Pedro Eurico, que posteriormente tornaria deputado, entraram  com um pedido de habeas-corpus no STF, pela suspensão da expulsão. O pedido foi concedido pelo ministro do Supremo, Djaci Falcão.

Durante todo o processo de expulsão, o padre Vito Miracapillo ficou confinado na CNBB, em Brasília. Defendeu-se explicando que não se recusou a rezar a missa - recusou-se, apenas, a celebrá-la no dia e na hora marcada pelo prefeito de Ribeirão. O padre Vito, não imaginava que poderia ser expulso do país pela sua atitude. A verdade é que o fato, gerou uma crise e que mais uma vez colocou em trincheiras opostas representantes do clero e do regime militar.

 A crise ficou evidenciada, durante a permanecia de bispos e cardeais brasileiros em Roma. Dom Ivo Lorscheiter, dom Aloísio Lorscheider, dom Eugênio Sales, dom Cláudio Hummes e dom Luciano Mendes de Almeida, patrocinaram uma silenciosa censura ao gesto do governo brasileiro. Convidados para um almoço na embaixada do Brasil, os bispos não compareceram.
2 de outubro de 1980, grupo de fornecedores de cana e senhores de engenho invadem a Matriz de Ribeirão para impedir a celebração da missa em solidariedade ao padre Vito Miracapillo. Foto: Natanael Guedes/AJB.

Enquanto isso, em Ribeirão, no dia 2 de outubro, 52 padres se reuniram junto a dezenas de fiéis para celebração de uma missa pela permanência do padre Vito Miracapillo. O que ninguém esperava é que a matriz de Nossa Senhora de Santa’ana seria invadida por um grupo de fornecedores de cana e senhores de engenho. A repórter da sucursal do jornal do Brasil no Recife, Divane Carvalho que cobriu o episódio descreve: ...armados, transtornados, eles entraram na igreja para impedir a celebração tendo como estandarte uma imensa bandeira do Brasil e nas mãos cópias da letra do Hino Nacional que cantavam lendo, porque não sabiam de cor todas estrofes. Uma exarcebada e equivocada demonstração de nacionalismo em plena agonia da ditadura.
    Com o mastro eles encurralaram os celebrantes no altar, assustaram os fiéis e tentaram impedir o trabalho dos jornalistas. Adultos e crianças gritavam, pulavam as janelas, um terror. Um dos manifestantes tentou tomar a máquina do fotógrafo Solano José, da “Isto É”,que escapou ajudado pelos colegas. Depois, partiram para tirar as anotações de Luzanira Rêgo, do jornal “O Globo”. A truculência cresceu e não havia saída: ela e eu subimos no altar lateral da igreja segurando uma cadeira e ameaçamos quebrá-la na cabeça do primeiro que se aproximasse. Não foi preciso. O delegado da cidade chegou em tempo, expulsou os agressores e a missa começou.
Corri para rua em busca de um telefone, coisa difícil naquela época, mas um comerciante indignado me ajudou e eu passei a notícia para Rádio Jornal do Brasil, a recompensa depois de tanta tensão: o material seria manchete da primeira página, daríamos as fotos e havia espaço para contar tudo o que aconteceu. Foi o que fiz.

Em 31 de outubro, o padre Vito Miracapillo deixou o Brasil, após o Supremo Tribunal Federal, por onze votos a zero, considerar perfeitamente legal, o decreto de expulsão assinado quinze dias antes, pelo Presidente João Batista Figueiredo.

Com dois cestos de bananas para dar de presente a seu avô e enfiado num sobretudo mais adequado ao o outono italiano, o padre Vito de 33 anos, deixou Brasília no fim da tarde da sexta-feira e voou para o Rio de Janeiro, escoltado pelo tenente-coronel Piero Ludovico Gobbato. No Galeão ficou trancado numa sala da Polícia Federal, o padre conversou durante meia hora com o cardeal  Eugênio Sales, três bispos e dois parlamentares do PMDB carioca. Às 22h20, já sem o sorriso que sustentara durante quase uma semana, o padre Vito Miracapillo embarcou no DC-10 da Varig, no vôo 734, para uma viagem de treze horas até Roma.

Enquanto isso, no Recife, sem atender a conselhos de dom Helder Câmara, o padre Reginaldo, vigário do Morro da Conceição, no bairro de Casa Amarela, distribuiu cópias à imprensa de um hino que compôs com oito estrofes onde classifica a decisão do STF de “coito verbal”, gerando um novo conflito entre a igreja e o governo militar. 
 Vito Miracapillo celebra missa em Ribeirão, em 1993. Foto: Jornal do Commercio/Recife.

A VOLTA- Em 1993, o Presidente do Brasil, Itamar Franco, concedeu ao padre Vito Miracapillo visto de permanência como turista. Mas só em outubro de 2011, a Presidente Dilma Rousseff concedeu seu visto permanente.        


Por: Jânio Odon de Alencar.
Fonte: Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Revista Veja.
Agradecimentos: Historiador Julio Reinaux e os jornalistas Jailson da Paz e Divane Carvalho.