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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Katarina Real, a embaixadora da cultura pernambucana

 

A antropóloga e historiadora norte-americana Katarina Real, uma apaixonada pela cultura popular pernambucana. Foto: Fundaj.

Foi durante minhas pesquisas, sem querer, que descobri a figura desta genial personagem norte-americana, conhecida em nossa cidade Recife como Katarina Real. Uma mulher apaixonada pela cultura popular e suas raízes em toda a América. O que me fascinou em Katarina Real, que era antropóloga, foi sua ousadia e predestinação em busca da essência e os elementos culturais de cada região e lugarejos remotos, onde poucos arriscariam transpor.

Aos 24 anos, após se casar aqui no Recife, com o agrônomo e conterrâneo, Robert Cate, que fazia trabalho de pesquisa no Brasil, passou a se chamar Katherine Royal Cate, mas que era conhecida aqui na terra do frevo como Katarina Real. Ela nasceu em 12 de agosto de 1927, na cidade de Annapolis, em Maryland (EUA).

Esteve na capital pernambucana pela primeira vez, ainda recém-nascida a bordo do Cruzador Milwalkee da Marinha Americana, comandado por seu pai, o almirante Forrest Betton Royal, que veio ao país para instruções navais com a Marinha do Brasil.

Em 1949, formou-se em Artes e Estudos Luso-Brasileiro pela Stanford University. Neste período, conheceu a obra de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, traduzida para o inglês por Samuel Putman. Katarina Real ficou muito impressionada com o que leu, principalmente com a influência do negro africano na cultura nordestina.

Aos 27 anos, Katarina Real, apresentava um programa cultural na rádio da Universidade de Stanford sobre a cultura Pan-Americana, onde em sua programação, exibia músicas folclóricas e regionais do Nordeste brasileiro e entrevistas. Numa dessas entrevistas, conheceu o jornalista pernambucano, Luiz Beltrão, onde construiu grande amizade. Luiz Beltrão enviou inúmeras correspondências com informações sobre a cultura pernambucana, gravações de frevo, maracatus e ritmos pernambucanos para serem disseminados na rádio americana.

Katarina Real esteve em Pernambuco diversas vezes durante as décadas de 1950 e 1960 e fez várias visitas entre as décadas de 1980 e 1990. Entre suas idas e vindas ao Brasil, Katarina Real esteve no Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Brasília.

Em Pernambuco, Katarina Real, viajou pelo interior do Estado, visitando povoados e cidades em busca de elementos culturais existentes em cada localidade como: maracatus rurais, reisados, caboclinhos, cirandas, papangus, pastoris etc. No Recife, subiu morros, caminhou por alagados e córregos, conheceu as comunidades carentes, fez amizades e registrou tudo em seus rascunhos e fotografias coloridas, o folclore, a tradição, o habitat de cada localidade visitada, algo que poucos pesquisadores e historiadores pernambucanos ousaram fazer.

Katarina Real, foi brilhante, ousada, destemida e humana. Uma gringa que amou o nosso carnaval, nossa cidade e nosso Estado e que merece toda nossa reverência. Conheça um pouco de sua história e trajetória, além de uma entrevista, numa matéria registrada magistralmente pelo Diário de Pernambuco em 26 de fevereiro de 1989, concedida a jornalista Lêda Rivas, e que o Blog Vozes da Zona Norte reproduz para você.

No Caminho da volta (Dizia o título) – Diferente de uma boa parte de seus compatriotas que tende a considerar todo o tipo de vida inventiva abaixo do rio Grande como uma imensa massa uniforme, sem nenhuma identidade cultural, Katharine Royal Knight (nome de solteira) conseguiu, em algumas décadas de vida, trabalho e emoção, detectar algo mais que exótico, o burlesco e o caricaturável deste lado desta pobre dilacerada América.

Master of Arts e doutora em Antropologia Cultural e Folclore, esta norte-americana – que, certamente, por equivoco nasceu nas imediações da baía de Chesapeake, mas bem poderia ter vindo ao mundo às margens do Capibaribe – tornou-se, em pouco tempo, uma das maiores conhecedoras dos carnavais do mundo e na mais confiável expert – e a avaliação é feita por folcloristas ilustres do porte de Olímpio Bonald Neto e Evandro Rabello – do carnaval pernambucano. A mais característica das nossas festas populares é, para ela, uma surtíssima atividade intelectual, à qual dedicou anos de estudos e pesquisas e que veio a consagrá-la como a autora do mais completo livro sobre o assunto.

Foi exatamente para atualizar suas investigações antropológicas e preparar uma segunda edição, revista, do seu “O Folclore no Carnaval do Recife”, o mais importante livro publicado sobre o tema, como nos adverte Evandro Rabello – que Katharine voltou ao Recife. Os que dela os recordam – que são muitos, entre expressões de nossa cultura erudita e representantes do pensamento popular – viram-na misturar-se com a massa, ao som do frevo e ao ritmo do passo, no início deste mês, inacreditavelmente multiplicada em várias pessoas, presente ao mesmo tempo, na passarela da Dantas Barreto, nas ruas de Olinda, na amplidão oceânica de Boa Viagem.

“Eu tinha tanta saudade do Recife...”, revela, emocionada até às lágrimas, lembrando que é tanto o seu amor pela cidade que fez grafar o nome do Recife na sua aliança de casamento. Tanto é o seu amor por tudo o que lembre a ibero e a luso-América, que chegou – no tempo em que fazia um programa sobre o folclore latino na KGEI, Universidade do Ar na Califórnia, - aportuguesar seu próprio nome, passando assinar-se Katarina Real. Ainda não liberta de toda heráldica que a conferência familiar (por parte do pai, Royal, por parte da mãe, Knight lhe impunha, viria, mais tarde, a acrescentar o sobrenome do marido, Cate, ao nome.

Esta Katarina Real-Cate que todos conhecemos tem um forte e longínquo vínculo com as terras brasileiras. Aqui aportou, nos últimos anos da década de 1930, pelas mãos do pai, um oficial da Marinha norte-americana transferido para o Rio de Janeiro, vindo do Estado de Maryland, na costa leste dos Estados Unidos. “Em 1939, sem saber uma palavra em português, eu cantava marchinhas carnavalescas e sambava, fazia o corso, com confetes e serpentinas na avenida Rio Branco”, recorda. O samba abria caminho, nas veias da menina parecida com a atriz Shirley Temple, para que o frevo lhe corresse, depois, no sangue. Foi o interesse pelas nossas manifestações folclóricas que fez Katarina retomar, muitas vezes, o caminho da volta.   

Mas primeiro aprimorou o aprendizado da língua e da cultura brasileira, no seu país de origem, estudando na Universidade de Stanford, onde especializou-se em estudos latino-americano, com ênfase no Brasil e no mundo luso-brasileiro. Contratada pela Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro aqui chegou em 1950 para servir de intérprete e tradutora, atuando imediatamente ligada a um jovem diplomata recém-chegado de um posto desafiante em Calcutá. Transferida em seguida para Washington, estava, então, irreversivelmente ligada não só ao país como ao jovem diplomata, um talentoso especialista em ciências do solo, Robert Cate.

O Recife do final dos anos de 50 foi o cenário do casamento de Robert e Katarina. Desligado de suas funções na Embaixada, o casal voltou ao Estados Unidos para cursos de pós-graduação na Universidade da Carolina do Norte, andou – por força de estudos dela e do trabalho de Bob como agrônomo – em várias partes da América (o norte do Brasil incluído) e, finalmente, por exigência de uma bolsa concedida em 1961, a Katarina, pela Organização dos Estados Americanos, regressou ao Recife por um período que se prolongou por oito anos. Começavam aí as pesquisas que dariam origem ao livro “ O Folclore no Carnaval do Recife”, publicado pelo Ministério da Educação e Cultura, através da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro.

O tempo em que residiu no Recife o sr. e a srª Cate transformaram o seu apartamento, no edifício Duarte Coelho na “Torre do Frevo”, numa clara alusão ao espaço que ali se concedia  a todos os amantes da folia. E tanta importância teve a participação de Katarina nos estudos antropológicos da Região que, em 1967 – ano da publicação do seu livro – ela foi indicada como representante do então prefeito Augusto Lucena na Comissão Organizadora do Carnaval do Recife (1965/1966) e secretária-executiva da Comissão Pernambucana de Folclore.

A última vez que Katarina esteve no Recife foi em 1977 (obviamente, no período carnavalesco). Doze anos depois, retorna (o marido Bob ficou em La Jolla, na costa pacífica, onde o casal mora “numa casa à beira mar, cercada de pedras, e onde se ouvem fantásticas tempestades) e onde – e aí alimenta a nossa inveja – “se comem maravilhosos crabs gigantes”, não só para atualizar seu interessante livro – totalmente esgotado – como para doar a Fundação Joaquim Nabuco, instituição que lhe serve de anfitriã, seu fichário e publicações raras alusivas ao carnaval pernambucano.8

Até meados de abril, possivelmente, Katarina Real estará entre nós. Entre os seus, para usar uma expressão que lhe agrada. Estudando, fazendo pesquisa de campo, revendo lugares queridos, falando de carnavais passados e lembrando os amigos, “tantos os que já estão no céu”, como Dona Santa”, aquela linda rainha do maracatu. E é isto que encanta nesta gringa recifencizada: o amor sincero e quase obsessivo que sente pelas manifestações populares e pela imensa massa anônima que faz a nossa história.

Num bate-papo informal sob a lua cheia e ao embalo de doces recordações – Katarina fala de seu trabalho, do seu amor pelo Brasil, do seu interesse pela nossa cultura (“lá em casa temos estantes para os livros brasileiros e estantes de livros americanos e as pessoas ficam ali olhando, abismadas, perguntando “você lê português?”) e eu, feliz, dizendo: “Eu não só leio, como escrevo em português”), do seu carinho pelos animais ( tem dois cães pomerânios lulus, “Xangô” e “Oxalá”, sucessores de “Urso Folião” e “Seu Pimenta”, que haviam ocupado o lugar de “Frevo e “Maracatu”), do seu profundo conhecimento do carnaval do mundo inteiro, em especial o nosso. São revelações apaixonadas – sensibilíssima – Katarina não raras vezes chega às lágrimas, principalmente quando fala dos que já se foram ou quando relembra (off the record) trajetórias distantes, como quando ela e Bob adentraram o sertão e desembocaram na caatinga, para descobrir milhares de belos passarinhos de todas as cores.

Vale a pena ouvir Katarina Royal Cate. Vale a pena aprender com ela.

DP – Katarina, por que o interesse pelo carnaval pernambucano?

KR – Porque o carnaval pernambucano é o mais interessante de todo o Brasil, principalmente do ponto de vista de seus aspectos folclóricos. Eu disse no meu livro que o carnaval do Recife é o mais folclórico do mundo. Mas eu gosto do carnaval em geral no Brasil, porque representa a verdadeira alma do brasileiro e considero-me um pouco brasileira. Gosto de beleza, música, dança, festividade, fantasia. Sou aliás, uma bailarina frustrada. Então, me dá uma felicidade imensa todo mundo nessa euforia carnavalesca e, às vezes, danço um pouco, caio no passo, caio no passo, e até faço o meu sambinha.

DP – Qual a manifestação carnavalesca mais autêntica e original que você conhece?

KR – Pergunta bastante difícil. Não há dúvida que os maracatus, caboclinhos, os folguedos folclóricos são os mais interessantes. Diria também que o urso brincante pela rua, os bois, cavalo marinho, Mateus, todas essas figuras do folclore nordestino enriquecem o carnaval e são muito originais. Também citaria a presença desses caboclos de lança com suas golas bordadas. Há muita coisa no carnaval que é completamente original, que não existe em outra parte do Brasil.

DP – E como vê o carnaval na cultura brasileira – a se admitir que exista uma cultura caracteristicamente brasileira?

KR – Eu diria que é uma das pedras fundamentais da rica cultura brasileira popular e até certo ponto de vista, intelectual. O carnaval do Brasil produz obra de arte, literatura, escultura, até sua própria arquitetura – o sambódromo do Rio de Janeiro - , o carnaval é tão interligado na cultura brasileira que é difícil imaginar um Brasil sem o carnaval. É uma pedra tão fundamental na cultura brasileira como o futebol, o jogo do bicho, feijoada no sábado à tarde, todas essas tradições tipicamente brasileiras.

DP – Falando em carnaval...dentro das manifestações populares brasileiras você estabeleceria algum paralelismo entre o carnaval e o futebol, as duas grandes paixões de massa no país?

KR - Estão tão interligados que cada vez que o Brasil ganha um jogo de futebol sai um grupo carnavalesco festejando. Também há muitos jogadores de futebol, principalmente nas escolas de samba do Rio, e aqui no Recife, integrados ao carnaval. Ambos, o carnaval e o futebol, expressam e revelam essa extraordinária e exuberância da personalidade brasileira.

DP – Você me disse que antes de aprender a falar português, você cantava nossas músicas, sem saber nada da língua, e dançava o samba. Sei também que você é muito versada no passo e lhe pergunto: Como uma grande conhecedora da coreografia do passo, você acha que este poderia chegar a ser um dos elementos configuradores de um possível balé brasileiro?

KR – Bem, seria um balé de bailarinos bastante individualistas porque não se pode colocar uma fila de passistas fazendo a mesma coisa. O passista faz o que quer. Agora, por exemplo, nos desfiles dos clubes, que vão colocando as alas dos passistas, isto funciona, é uma beleza, é um balé folclórico na passarela. Será então levar o que acontece na passarela para o palco – e isto será um balé. Mas um balé de todo o mundo fazendo coisas diferentes, que é uma das características do passo. E é balético, não há dúvida.

DP – Eu tenho uma curiosidade em relação ao trabalho que você realizou aqui e qual foi o feito – palavras suas – nos morros e mangues da cidade: como uma gringa era tratada, então, no meio de nossa mulatice?

KR – (risos) Oh, maravilhosamente! Isto foi a coisa mais estranha que me aconteceu aqui. Digo no meu livro que foi das coisas mais divertidas. Quando eu andava lá pelo alto de Nossa Senhora de Fátima (antigo Alto da Foice), parece que as pessoas nunca tinham visto uma criatura como eu. Todo mundo se aglomerava em torno de mim, principalmente os meninos, e eu ouvi alguém dizer (sem saber que eu estava escutando), que eu era “a senhora galega da fala estranha”. Eu achei isso uma beleza. O povo sempre me aceitou maravilhosamente. E isso eu achei até milagroso. Você veja, uma mulher estrangeira aparecer na porta de um barraco, segurando um caderno, fazendo uma porção de perguntas, algumas até indiscretas, e o povo receber tão bem. Não sei explicar, o povo sempre me tratou com a maior gentileza e sempre lhe serei gratíssima por isso. Para mim uma das maiores experiências da minha vida foi este contato, esse entrosamento, esse amor do povo maravilhoso dos subúrbios recifenses.

Dona Santa, uma lenda do carnaval pernambucano. Fundou o Maracatu Estrela do Oriente, dirigiu os maracatus Leão Coroado e durante 16 anos, o Nação Elefante. Foi coroada rainha do maracatu em 1947. Faleceu em 1962, aos 85 anos. Foto: Fundaj.

DP – E desse tempo que lembranças você guarda com mais emoção?

KR – Tantas lembranças, Por várias noites visitei Dona Santa na sede do seu maracatu, na época que ela estava saindo toda trajada de rainha com seu cortejo para visitar outro clube popular. Tive a honra e o privilégio de acompanhá-la nessas visitas. Uma vez fui lá no Alto do Céu (Beberibe), subi a pé porque não havia caminho pavimentado e era um dia de calor infernal. Subi e estava morta de cansaço e de sede, e as pessoas ali bem rústicas, a maioria era do Interior, mandaram vir água mineral, café com leite para servir a uma pessoa completamente estranha. Eu achei uma generosidade inacreditável. Momentos como esse são inesquecíveis. E a coisa mais linda que eu conheço é a vista da cidade do Recife desde os altos, como o Morro da Conceição, o Alto do Mandu. O Recife lá longe, brilhando ao luar. É uma lembrança fantástica. E sobre isso eu posso falar horas e horas.

DP – Você assistiu ao nosso carnaval agora, depois de ficar tanto tempo longe do Brasil. E certamente observou que o carnaval mudou em algo, surgiram agremiações e carnavalescos novos, e surgiu um grupo muito forte, que arrasta uma multidão extraordinária, que é o Galo da Madrugada. Você acha que o Galo da Madrugada é o aburguesamento do carnaval?

KR – O carnaval tem de mudar com o tempo e tem de aburguesar-se também...

DP - ... ou a burguesia de carnavalizar-se ...

KR – (risos) Exatamente. Um ou outro. Mas um carnaval que não está em plena evolução, mantendo seu dinamismo, é condenado a decadência ou ao desaparecimento. Aliás, isso aconteceu em certos dos antigos carnavais da Europa, que tornaram-se arcaicos, não combinavam com os tempos, e o povo perdeu interesse. O aburguesamento do carnaval é uma exigência de sua vitalidade. Claro que a burguesia não faz coisas tão lindas como o povo, isto é um ponto de vista pessoal. Mas carnaval é para todo o mundo, carnaval é para brasileiros, e até para Katarina Real. Todo mundo pode participar a sua própria maneira.

DP – A propósito dos carnavais europeus, você teve a oportunidade de conhecer e/ou de fazer estudos comparativos entre o nosso carnaval e o de outros países, não necessariamente da Europa?

KR – Umas das minhas especialidades é o estudo de carnavais do mundo inteiro, no espaço e no tempo. Minha tese de doutoramento foi um grosso volume estudando as origens do carnaval, desde as Saturnálias de Roma e as festas pagãs da Grécia antiga, do Egito, da Babilônia. E até as Saturnálias dos judeus, que era a Festa do Purim. Moramos vários anos nas Caraíbas e fiz uma pesquisa sobre o carnaval de Trinidad e das Guianas. Trinidad tem esses músicos maravilhosos dos grupos de tambores de aço. Fiz pesquisa entre eles. Não quero criticar, mas os pretos que tocam tambores de aço não me trataram com a gentileza do povo brasileiro. Foram gentis de alguma forma, mas não houve o entrosamento que tive aqui. Há também o carnaval de Nova Orleans, o Mardi Gras, um carnaval bem diferente do brasileiro, bastante afrancesado, mas que tem a sua parte popular – os negros das orquestras de jazz desfilam, por exemplo. Em suma, sempre que haja um carnaval para pesquisar, estou lá com meu caderno. Mas de todos esses carnavais que conheço, não tenho dúvida de que o do Brasil é o mais interessante, o mais vibrante e o mais dinâmico.

DP – O que mudou no carnaval pernambucano, na sua opinião?

KR – Na sua estrutura, nas suas características e na sua personalidade não vejo muita diferença. O carnaval de Pernambuco desde a década de 1960 tem crescido fantasticamente. O crescimento do carnaval em si, o crescimento do número de integrantes em todas as agremiações, clubes, blocos, maracatus, caboclinhos, as escolas de samba. Eu fiz um fichário enorme, na década de 60, com uma ficha sobre cada clube carnavalesco. As fichas iam de 1961 a 1968. Trouxe-as agora para o Recife. E veja que interessante: aparece uma escola de samba, por exemplo, creio que Império do Samba, ou Império do Asfalto, onde registrei a observação: “Escola de samba enorme. Duzentas pessoas. Batucada de cinquenta pessoas”. Esse mesmo grupo saiu este ano com duas ou três mil pessoas. Isso é só para citar um exemplo do crescimento. A coreografia dos grupos, hoje, é mais desenvolvida. Tem mais grupo em cada categoria. Eu me alegro em ver que o dinamismo do carnaval continua.

DP – Na sua opinião o apelo erótico é válido nos desfiles carnavalescos?

KR – Ah, bom, um brasileiro muito inteligente me disse há alguns anos: “Olhe Katarina, o brasileiro foi formado de três raças, duas das quais andavam quase que inteiramente nuas, o índio da floresta tropical e o africano. Então, o europeu ia botar roupa nesse povo, num país tropical? O índio na sua nudez permitida é a criatura mais feliz do mundo. Bote roupa nele e ele morre de calor, com qualquer chuva pega um resfriado, ou pneumonia, e morre em poucos minutos”. Então eu acho esse negócio de nudez próprio do brasileiro, que volta a sua própria natureza. Vamos tirar toda essa roupa do carnaval (risos)... Bem, isso é mesmo surpreendente para os que vêm de fora. Mas eu acho uma beleza tudo o que o povo faz, se é do seu gosto.

DP – Você deve ter visto alguma coisa, este ano, pela televisão, do carnaval do Rio de Janeiro...

KR – Sim, eu conheço o carnaval do Rio desde a década de 1930. Até parece que estou ficando bem velhinha. Mas estive aqui ainda menina. E depois, na década de 1950, tive a oportunidade de ver o crescimento das escolas de samba. E vi na TV Manchete o desfile das escolas de samba até altas horas da madrugada, quando devia estar dormindo para me recuperar de outro dia de pesquisa de campo no Recife. Todo mundo sabe que o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro é um dos grandes espetáculos do mundo. Cada vez fica maior e mais fantástico. Eu não sei onde vai parar. Tudo muito bonito e crítico...

DP - ... talvez o povo seja o maior crítico social...

KR – Sim, Eu gostei imensamente da Beija-Flor com aquele negócio de “luxo e lixo”. Muitas dessas belezas do carnaval deveriam ser vistas nos Estados Unidos. Mas há um ponto interessante que acho que os brasileiros não sabem e vale a pena anotar: o carnaval brasileiro vai influindo nos Estados Unidos bastante. Quase todas as cidades norte-americanas têm baile de carnaval brasileiro, muito frequentados pela população. Em San Diego, na Califórnia, onde moro, há uma sociedade brasileira que todo o ano promove um baile de carnaval, de que sempre participo. Enche-se não somente de brasileiros e americanos, mas de toda colônia latina e de boa parte dos negros dos Estados Unidos, que raramente é vista num baile social. Os negros americanos naturalmente adoram o carnaval. Los Angeles tem três ou quatro bailes de carnaval brasileiro, San Francisco também, Nova York acho que tem pelo menos uns dez. E o que eu acho mais interessante ainda é que San Francisco estão surgindo escolas de samba, formadas de estudantes que se reúnem uma vez por semana para afinar a batucada. E aí você pode ver moças de cabelos louros e olhos azuis tocando tamborim, pandeiro etc. Há um grande desfile de escolas de samba em San Francisco, em junho, que já tive oportunidade de ver. Aliás, muitos deles são ensaiados por uma bailarina brasileira que mora em San Francisco. Saem escolas com porta-estandartes e ala de malabaristas. Não é tão bem-feito como no Brasil, mas o americano está tentando. (Finalizou).

Katarina Real, faleceu em 6 de junho de 2006, na cidade de Tucson, no Arizona (EUA), aos 79 anos.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Diário de Pernambuco e Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

 

 

 

 


domingo, 24 de julho de 2022

Lêda Baltar, uma estrela do frevo na Cidade Maravilhosa

Lêda Baltar levando o frevo e o maracatu pernambucano para a Cidade Maravilhosa. Foto: Revista "O Cruzeiro" em 2/3/1935.

Durante os anos de 1930, uma jovem recifense, universitária, de família rica, ganhou grande destaque no meio artístico, musical e social. Ela ganhou destaque da imprensa pernambucana por está presente nos principais bailes e eventos da cidade do Recife, muitos deles beneficentes.

Lêda Baltar, que fez parte da Banda Jazz Acadêmico de Pernambuco, formado por estudantes universitários, onde tocavam além do jazz, tocavam blues, foxs, frevo, maracatus e até samba na voz de sua eletrizante vocalista e instrumentista. Já que Lêda, tocava diversos instrumentos, além do piano. Em julho de 1934, fez uma grande apresentação no teatro Santa Izabel, durante a visita do compositor Villa Lobos, ao Recife. Lêda Baltar, cantou blues e dançou dança cigana.

Ainda em 1934, participou do concurso garota “Rosa da Primavera”, representando o bairro da Capunga, evento organizado pela Associação de Imprensa de Pernambuco, onde foi eleita em primeiro lugar com 22.218 votos. Participou de diversos eventos artísticos com o maestro Nelson Ferreira, irmãos Suassuna, Waldemar de Oliveira entre outros.

Pouco se publicou sobre a vida e a carreira desta talentosa artista, todavia, sua participação na Banda Jazz Acadêmico lhes trouxe notoriedade, pois participava de quase todos os eventos sociais e culturais no Estado, sendo convidado a participar de eventos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Em sua passagem pela “Cidade Maravilhosa”. Lêda Baltar foi bastante elogiada porque levou a cultura pernambucana à capital do samba, onde o frevo e as batidas dos maracatus ainda não haviam sido vistos. Os cariocas ficaram encantados com a apresentação de Lêda Baltar e a banda. Tanto, que a revista “O Cruzeiro” que à época era uma revista de grande circulação em todo território nacional, onde rendeu grandes elogios:

Revista “O Cruzeiro” em 2 de março de 1935

Lêda Baltar centraliza as atenções do Rio de Janeiro. Nunca estiveram aqui interprete mais legitima do folclore musical pernambucano. Música nortista cheia de encanto diferente, ritmos fortes, é por assim dizer, desconhecido entre nós. Tem sido revelada, por alto. O “Jazz Acadêmico de Pernambuco” veio trazer em pleno carnaval, ao conhecimento dos cariocas, as músicas carnavalescas pernambucanas. O que são as marchas do Recife, já o nosso grande público sabe, através “O teu cabelo não nega” música pernambucana dos irmãos Valença divulgada, um ano depois de sua estreia, por um compositor daqui. Os moços acadêmicos de Pernambuco selecionaram o que havia de melhor no repertório carnavalesco do ano: marchas e maracatus. O “Jazz Acadêmico” é composto de rapazes da mais fina sociedade recifense, todos eles universitários, das Faculdades de Direito, Engenharia, Medicina etc. Ao compasso marcial da música pernambucana, os foliões das margens do Capibaribe dançam o “frevo”.

Pedimos ainda a Lêda Baltar para dizer-nos o que é o “frevo”. Desta vez, porém, Lêda Baltar, não mostra, diz:

- O “frevo” é um passo de dança que se executa, ao som de marchas carnavalescas. É uma dança que contém passos de várias danças do mundo inteiro. A ligeireza do ritmo musical comporta uma série de atitudes que se plasmam e se desfazem. Eu poderia dizer do “frevo” que ele é um verdadeiro coquetel de danças. Há passos de bailados russos. Veja o jogo de pernas dos foliões. Há passos delicados de passos de salão etc. Até hoje ninguém fixou definitivamente a coreografia do “frevo”. Mesmo porque, os pernambucanos precisam aprendê-lo. Já nascem sabendo.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE.

Fonte: Revista O Cruzeiro e Diário da Manhã.

Galeria de fotos

Lêda Baltar no Rio de Janeiro, 1935, "O Cruzeiro"

Lêda Baltar com seu saxofone, Rio de Janeiro, 1935, "O Cruzeiro"

Lêda Baltar (em pé) cantando com Risoleta Cavalcanti. Recife, 1936, "Diário da Manhã"

Lêda Baltar com Risoleta Cavalcanti e a Banda Jazz Acadêmica, Recife, 1936, "Diário da Manhã".





 

 

 



 

domingo, 12 de novembro de 2017

Em 1975, a Escola Gigante do Samba perde o Tricampeonato para Estudantes de São José e entra em crise

1975- Passistas de Gigante do Samba eufórico na passarela do samba em busca do tricampeonato do carnaval pernambucano. Depois da apuração, só decepção. Para o Diário de Pernambuco a escola estava com um rei na barriga, disse o colunista social, João Alberto.


Em 1975, A Escola de Samba "Gigante do Samba" buscava o tricampeonato. Com fama, até hoje, de melhor escola de samba de Pernambuco. Gigante que a princípio teria como enredo uma homenagem ao sesquicentenário do Diário de Pernambuco, mudou de ideia e lançou outro enredo homenageando Olinda com o tema: "Olinda, seus costumes e suas tradições". Para compensar e não causar um mal-estar com o pessoal do Diário, que durante todo o ano publicou notas convocando os adeptos do samba a comparecer ao São Luiz Show, da Bomba do Hemetério, às sextas-feiras para prestigiar o tradicional sambão da escola. A Diretoria criou a ala do Diário que contou com aproximadamente oitenta funcionários fantasiados de típicos personagens olindenses. Doze garotas de tanga com as cores verde-branca fizeram evoluções à frente da ala.
Gigantes do Samba desfilou com 3 mil figurantes distribuídos em 150 alas e 10 alegorias. O grande destaque foi a fantasia do carnavalesco Múcio Catão, que ele havia desfilado no 3º Baile dos Vassourinhas, chamada de "A besta fera do apocalipse" que foi bastante criticada por fugir do tema do enredo, já que tinha um enorme dragão de sete cabeças, chifre e coroas. No corpo do animal, uma abertura por onde  o desfilante aparecia vestido com as cores da escola. Outros grandes destaques, foi a sambista Ana, do Alto do Pascoal, considerada a melhor sambista do Estado e o pessoal da bateria comandados por Maurício da Paixão, Luiz Amaro e o outro Maurício, que substituiu o conhecido Lavanca.
O orçamento da Escola Gigantes do Samba ficou em torno de CR$ 100 mil cruzeiros, afirmou Belo Xis. Terminado o desfile, uma grande preocupação para os integrantes e diretoria de Gigantes. Primeiro, pelo seus próprios erros e, segundo, pelo belo e grandioso desfile do rival Estudantes de São José, aclamado no final do desfile pelo público presente com os gritos de: "É campeão, é campeão".
Os ensaios no São Luiz Show, nas sextas.
O fato veio a se confirmar após o anúncio da comissão julgadora. Estudantes de São José, 412 pontos e Gigante do Samba, 394 pontos. A tristeza e a desolação tomou conta dos incrédulos integrantes de Gigante. O esperado tricampeonato não veio, mas, a Bomba do Hemetério não só foi tristeza, pois, o Caboclinhos Canindé foi campeão, superando Tabajaras e Carijós. O fato é que a Escola de Samba "Gigante do Samba" não foi poupada e no dia 17 de fevereiro de 1975, o grande colunista social, João Alberto em sua coluna publicou o seguinte comentário:
Gigante do Samba começou a perder o tricampeonato no dia em que uma divisão na sua diretoria fez com que o enredo anunciado – “Sesquicentenário do Diário”, fosse substituído por Olinda. Aquela querida escola cresceu muito, seus diretores ficaram com um rei na barriga e colocaram por terra o grande sonho. Faltou, principalmente, humildade, exatamente a grande arma de anos anteriores. Humildade que sobrou na Estudantes de São José, a grande campeã.
Logo em abril, os que fazem Gigante do Samba queriam realizar o sambão, isto é, comercializar a escola. O sucesso foi menor, bem menor, do que do ano passado. As grandes figuras na ligação com a imprensa, com a relações públicas Penha – Desapareceram, o negócio era faturar. Num desfile em homenagem ao nosso jornal, Gigante do Samba esnobou, não veio a pracinha do Diário.
No dia do desfile, depois de um grande atraso, a atitude desastrosa e grosseira de desfilar na rua da Imperatriz andando, como se ali fosse uma simples rua de bairro. A multidão, que ali estava a horas, esperando Gigante do Samba, foi esquecida, o esforço dos companheiros de uma emissora de televisão, ali instalada, não foram levados em conta. A apresentação de Gigante do Samba parecia um velório.
Além disso, é justo que se diga: Estudantes de São José se apresentou mil vezes melhor, fazendo jus à vitória. Foi a reconquista de um título, conseguido com muito esforço e, o que é mais importante, com muita humildade. Seu enredo sobre Casa Grande & Senzala estava muito bom. Uma ideia na comparação entre as duas escolas pode ser dada pela alegoria do chafariz, presente em ambas. Enquanto na Estudantes de São José era bem feita, jorrava água realmente, em Gigante do Samba não passava de um mal feito desenho.
Como torcedor de Gigante do Samba, fiquei triste com a derrota, mas espero sinceramente que ela tenha a grande virtude de levar a humildade de volta à Bomba do Hemetério. No caminho de volta, nós estaremos outra vez ao lado de Gigantes do Samba, que é grande, apesar da derrota. Uma derrota muito honrosa, afinal seria muito difícil vencer Estudantes de São José, tão bela foi sua presença na passarela.
No ano de 1976, Estudantes de São José conseguiu ganhar o bicampeonato com 328 pontos, contra 321 pontos de Gigante do Samba.

 Por: Jânio Odon/ BLOG VOZES DA ZONA NORTE
Fonte: Diário de Pernambuco.

sábado, 8 de março de 2014

O Carnaval da Bomba do Hemetério em 2014, foi sucesso absoluto

O Carnaval multicultural da Bomba do Hemetério foi o máximo. Foto: Jânio Odon.


O Polo da Bomba do Hemetério foi implantado pela Prefeitura da Cidade do Recife em 2011, desde então, vem sendo sucesso absoluto ano após ano. E em 2014 não foi diferente, à tarde, era a vez das agremiações com seu colorido e evoluções, que este ano teve mais espaço, pois a organização colocou a torre de controle de som e iluminação fora da praça, como também, a fiação, que provocou vários tropeços e tombos aos foliões no ano passado, recebendo muitas criticas da comunidade. À noite, era vez dos shows de palco, com muitas atrações boas regionais e os artistas consagrados nacionalmente, como: Gaby Amarantos e os veteranos Fafá de Belém  e o sambista Martinho da Vila. Além deles, tivemos excelentes atrações como: Bongar, D`Breck, Luciano Magno, Xico de Assis, Ramos Silva, Nádia Maia, que eu acompanho desde à época de solteiro, quando ela era vocalista da Banda Alcano. Tivemos ainda, Spok Frevo Orquestra, Walmir Chagas ( o véio Mangaba), Tibério Azul, Geraldinho Lins e Rogério Rangel. O Carnaval da Bomba do Hemetério é tradição e merecidamente tem seu próprio polo de animação. O prefeito do Recife,  Geraldo Júlio está de parabéns e toda a equipe que trabalhou no polo, as agentes de saúde, a equipe técnica, os segurança, o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar que deu apoio com o efetivo do Batalhão 17 de agosto, que garantiu a segurança do evento com muito profissionalismo, que contou com a colaboração de toda comunidade, que na realidade só quis se divertir e mostrar que brincar o carnaval na Bomba é bom demais.

Nádia Maia com sua bela fantasia, animou o público presente com muito frevo no domingo. Foto: Clério Tomaz/PCR.
No domingo, a grande atração da noite foi Gaby Amarantos que encantou a todos.

Gaby Amarantos encantou jovens e adultos no Polo da Bomba do Hemetério. Foto: LeiaJá.

O prefeito do Recife, Geraldo Júlio fez sua média no Largo da Bomba. Foto: LeiaJá.

Na segunda-feira, estive no Polo da Bomba do Hemetério e acompanhei a apresentação de algumas agremiações com esta: "A Japa do Coque". Foto: Jânio Odon.

A Japa do Coque fez uma apresentação modesta, mais com muito frevo. Foto: Jânio Odon.

Amante das Flores fez uma bela apresentação. Foto: Jânio Odon.

Passistas do "Amantes das Flores" abrilhantaram o Polo pelo entusiasmo e harmonia. Muito bom. Foto: Jânio Odon.
Amantes das Flores, passistas deram um show. Foto: Jânio Odon.

O Batutas de Água Fria homenageou o centenário do Santa Cruz. Foto: Jânio Odon.

A ala de baianas do "Batutas de Água Fria" muito colorido e beleza em suas evoluções. Foto: Jânio Odon.

A homenagem ao Santa Cruz, que foi fundado com o uniforme alvinegro em 1914, pelo Batutas de Água Fria. Foto: Jânio Odon.

Bela apresentação do "Prato Misterioso". Foto: Jânio Odon.

Abanadores do Arruda não fez feio em casa, fazendo uma excelente apresentação. Foto: Jânio Odon.

Abanadores encerrou as apresentações das agremiações. Foto: Jânio Odon.

Adultos e crianças se divertiram bastante no Polo da Bomba do Hemetério. Foto: Jânio Odon.

Fafá de Belém foi a grande atração da segunda-feira. Na terça, teve Geraldinho Lins e Martinho da Vila. Foto: Líbia Florentino/LeiaJá.

Por: Jânio Odon.






terça-feira, 4 de março de 2014

Mocidade Independente de Padre Miguel homenageou o carnavalesco pernambucano Fernando Pinto

A Mocidade e o seu bumba-meu-boi gigante. Foto: Marcelo Moreira/Futura


A Mocidade Independente de Padre Miguel abriu a segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (3), com uma homenagem a Fernando Pinto, carnavalesco ícone da escola morto em 1987, levando para a avenida o estado natal dele, Pernambuco, e os desfiles que Fernando comandou na escola nos anos 1980.

Nos setores do desfile dedicados aos anos 1980, tiveram destaque a comissão de frente, no formato da nave da Xuxa, e o abre-alas em referência ao Carnaval de 1985, em que Monique Evans  se consagrou como primeira rainha da bateria a fazer topless, fato que foi lembrado com musas sem silicone. Já no clima pernambucano, a bateria surpreendeu ao inserir sanfona e toques de baião, dando novo formato às paradinhas.
  
No enredo da Mocidade, Fernando Pinto voltou do espaço para revisitar o lugar onde nasceu. Ao longo do desfile, a escola fez uma viagem pela cultura pernambucana e levou Fernando de volta para o espaço. Lá, ele criou sua própria cidade, ''Pernambucópolis''.

Fernando Pinto
E para falar de viagem, a comissão de frente fez uma brincadeira com a nave espacial do Xou da Xuxa, programa infantil dos anos 80 e 90 da TV Globo. Os integrantes estavam fantasiados como "xuxas prateadas" que mandavam beijinhos com soprinho para o público, marca da apresentadora.

A comissão de frente interagiu com uma nave espacial em forma de pandeiro. Em frente aos jurados, os bailarinos escolhiam um entre os foliões que estavam no público para embarcar na nave.
A brincadeira com o programa infantil foi uma referência ao enredo da Mocidade "Beijim, Beijim, Bye Bye Brasil", de 1988, que falava dos anos 1980. Foi o último carnaval de Fernando Pinto na Mocidade. Ele morreu em um acidente antes do Carnaval. 

A veterana Monique Evans voltou à escola que a consagrou como rainha de bateria nos anos 1980. Ela desfilou no tripé do carro abre-alas. "Estou muito nervosa, você não está entendendo", disse ela ao UOL antes do início do desfile.
"Eu nunca mais achei que fosse passar por isso. Faz muito tempo, ainda mais com essa responsabilidade de ser a estrela da escola", comentou.

O carro homenageou Monique com musas usando a mesma fantasia que a tornou famosa, com os seios de fora. E, para reforçar a referência aos anos 80, a escola selecionou mulheres sem silicone.
"As meninas vieram exatamente como eu saí em 85. Eu cheguei no barracão e Fernando Pinto não tinha feito a fantasia de rainha de bateria. Aí ele colou umas coisas no meu corpo, mas caíram. Foi o primeiro topless na avenida", contou Monique no estúdio da TV Globo.

Para encontrar as musas sem silicone, a escola fez uma seleção. Mais de 50 se candidataram. "As interessadas foram escolhidas pelo carnavalesco. Foram muitas, conheço umas 20 que no foram selecionadas", destacou Flavio Avelar, membro da diretoria da Mocidade.

A ala que representou os caboclinhos. Foto: Marcelo Moreira/Futura.

A proposta inicial era que as musas saíssem todas de topless, mas na opinião de Avelar, hoje as mulheres preferem sair com os seios cobertos e foi dada esta opção às mulheres selecionadas. "Mas hoje também não é fácil encontrar mulheres bonitas sem silicone no Carnaval", admitiu.
Outra parte do abre-alas também fez referência à viagem espacial da escola entre o planeta Terra e Pernambucópolis. Astronautas pareciam flutuar na órbita de um planeta inflável segurado por cordas.
Bonecos de Olinda e o Galo da Madrugada

Em seguida, a escola entrou na cultura pernambucana. Alas e carros alegóricos falaram dos cangaceiros, da Folia de Reis, do Reisado, do Galo da Madrugada e dos bonecos gigantes de Olinda. A cidade de Nova Jerusalém, conhecida por encenar a Paixão de Cristo no sertão pernambucano, foi lembrada em um dos carros.

Ala representando os bonecos gigantes de Olinda. Foto: Futura.

A pernambucana Fabiana Karla também foi destaque na escola e se fantasiou de noiva de Caruaru. Ela desfilou com o marido e disse que renovaria os votos na Sapucaí. 
O carnaval da Mocidade este ano acontece em meio a problemas a problemas administrativos O então presidente Paulo Vianna e outros três diretores da escola foram denunciados pelo Ministério Público por falsidade ideológica, e Wandyr Trindade assumiu o comando da verde e branco da zona oeste do Rio.
Rainha estreante

A atriz Mariana Rios  estreou na Sapucaí. Coroada pouco tempo antes do Carnaval, Mariana se fantasiou de gladiadora para "representar o povo guerreiro de Pernambuco e o povo guerreiro da escola".
"Esta é a primeira vez que desfilo. Já que a gente vem, vamos vir direito", disse ao UOL na concentração. 
Ainda se acostumando com a fantasia que parecia incomodar na cabeça e no costeiro, Mariana  contou que fez apenas duas provas e esta era a terceira vez que experimentava. "Foi tudo tão incrível até agora, só peço a Deus que seja brilhante", disse.

Por: Fabíola Ortiz /BOL



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quem pode com o carnaval da Bomba do Hemetério ?

Alceu Valença foi a maior atração do carnaval do Pólo da Bomba do Hemetério em 2013. Foto: Jânio Odon.


Mas uma vez,  o carnaval da Bomba do Hemetério foi show de bola. Nesta segunda-feira (11), acompanhei de perto o já tradicional carnaval bomberense no Pólo da Bomba do Hemetério, situado na Praça Castro Alves, o primeiro da administração do prefeito Geraldo Julio.  A partir das 16 horas, começou as apresentações, primeiro foi o Clube Carnavalesco Bola de Ouro, depois se apresentaram na sequência, Clube Girassol da Boa Vista, Troça Abanadores do Arruda, Urso Cangaçá e Troça Batutas de Água Fria que completou 73 anos de existência.

À noite, a praça da Bomba do Hemetério superlotou, tinha gente de toda região do Recife. Não podia ser diferente, todos aguardavam ansiosamente a atração principal, o genial Alceu Valença. Todavia, as atrações que antecederam o mestre de São Bento do Una, barbarizaram. Carlinhos Monteverde, Tadeu Jr e Nonô Germano não deixaram ninguém parado, foi muita animação e muito frevo, os caras foram excepcionais, sabem tudo de carnaval. Quem veio não se arrependeu. Não é atoa que a Bomba do Hemetério é o bairro mais cultural do Recife. Pergunte para algum morador se alguém quer sair de lá, e quem saiu, não quer voltar. Durante todo show que acompanhei nesta segunda-feira, não houve se quer, um incidente. O povo bomberense deu um grande exemplo de civilidade e cidadania. Jovens, velhos e crianças curtiam na praça da Bomba, o carnaval com a maior tranqüilidade, sem violência e com muita paz.

À uma hora e dez minutos, da terça-feira, Alceu Valença sobe ao palco ovacionado pela multidão que se cumprimia de todos os lados. Alceu que se apresentou fantasiado de Carlitos, personagem do ator e cineasta britânico Charlie Chaplin, arrancou gargalhadas da platéia e ele próprio pediu para que todos o vaiassem. A contra gosto, a multidão o vaiou sorridente. Pois é, o cara é tão genial que é difícil até vaiar. Alceu Valença cantou seus velhos sucessos e suas canções carnavalescas que não deixou ninguém parado. O mestre Alceu aos 66 anos, demonstrou muita vitalidade no palco do Pólo da Bomba do Hemetério e deixou saudades. O carnaval do Pólo da Bomba do Hemetério teve de tudo, maracatus, bois e ursos carnavalescos, blocos, troças, afoxés, samba e muito frevo. Além dos artistas já citados, se apresentaram Zeh Rocha, o sambista Belo Xis e o grande homenageado do carnaval pernambucano, o percussionista Naná Vasconcelos.

A Bomba do Hemetério dos velhos carnavais em seus palanques de madeira e iluminação a base de gambiarras e  sons precários dos anos 80, deram lugar a sofisticados equipamentos de som e luz e um palco magnífico do tamanho e da grandeza do carnaval do povo bomberense. A Prefeitura do Recife está de parabéns mais uma vez. Agora na gestão de Geraldo Julio. Por garantir o Pólo da Bomba do Hemetério, a comunidade agradece não só ao prefeito, como também aos coordenadores, técnicos, seguranças, a Dircon, os garis, os policiais do Batalhão 17 de agosto da Polícia Militar e a recrutada do CEMET pelo excelente trabalho realizado neste carnaval.   
O palco do Pólo da Bomba do Hemetério estava bem localizado, porém a base de controle de som e iluminação ficou postado dentro da praça, como também os cabos de ligação, que cruzavam o terreno, prejudicando a exibição das agremiações e diminuindo o espaço durante a evolução. Foto: Jânio Odon
O Bloco Bola de Ouro fez a primeira apresentação da segunda-feira. Foto: Jânio Odon
O Bloco Bola de Ouro, muito frevo no Pólo da Bomba do Hemetério. Foto: Jânio Odon
Grande exibição e muita beleza na evolução do Bloco Bola de Ouro. Foto: Jânio Odon
A beleza das passistas do Bloco Bola de Ouro. Foto: Jânio Odon
Passistas do Bloco Girassol da Boa Vista entram no Pólo da Bomba do Hemetério. Foto: Jânio Odon
Pierrots, passistas e porta-estandarte do Bloco Girassol. Exibição com muito brilho e muito frevo. Foto: Jânio Odon
A Troça Abanadores do Arruda e suas baianas multicoloridas na praça da Bomba do Hemetério. Foto: Jânio Odon
Exibição das passistas da Troça Abanadores do Arruda. Foto: Jânio Odon
A dupla de puxadores de canções folclóricas do Urso Cangaçá deu show no Pólo da Bomba do Hemetério. Foto: Jânio Odon
A Troça Batutas de Água Fria comemorou seus 73 anos com muito brilho. Foto: Jânio Odon
À noite, o novo prefeito da cidade do Recife, Geraldo Julio, foi desejar um ótimo carnaval aos presentes no Pólo da Bomba do Hemetério. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR.
O palco visto da rua Visconde de Sabugosa, durante o show de Nonô Germano. Foto: Jânio Odon
Nonô Germano, velho conhecido dos bomberenses, fez uma excelente apresentação, com muito frevo. Foto: Jânio Odon
A praça Castro Alves ficou pequena pra tanta gente, que veio vê o cantor Alceu Valença. A varanda da minha amiga Gorete virou camarote vip. Foto: facebook/Alceu Valença.
 Alceu Valença fantasiado de Carlitos fez uma apresentação apoteótica. Foto: Jânio Odon
O show de Alceu Valença no Pólo da Bomba do Hemetério foi sensacional. Foto: Jânio Odon

Por: Jânio Odon.