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terça-feira, 4 de março de 2025

Fraude na eleição para vereadores da Vila de Olinda em 1844

Em 1844, os votos do povoado de Beberibe na eleição para vereadores da Câmara de Olinda, foram anulados, no vergonhoso pleito eleitoral. Foto: Museu da Cidade do Recife.

Não é de hoje que as manobras políticas acontecem, as fraudes e corrupções nas eleições sempre existiram, como este episódio que aconteceu na eleição para vereadores à Câmara Provincial de Olinda em 1844, na época do Brasil-Império, do recente imperador D. Pedro II, que começou a governar o Brasil em 1840. Era da escravidão africana. O Presidente da Província de Pernambuco era Tomás Xavier Garcia de Almeida, que governou a Província de Pernambuco, num ano em que tivemos cinco governadores em virtude da Revolução Praeira, onde a briga política entre os membros do Partido Liberal e do Partido Conservador era intensa. Diante de um cenário político turbulento, ações fraudulentas como a que aconteceram em Olinda, demonstra o quanto era crítico e desafiador a situação da administração pública.  O Diário de Pernambuco em 17 de dezembro de 1844, onde votaram mais eleitores do que havia nas atas eleitorais. Um escândalo de imoralidade denunciado pelo jornal da seguinte forma:

Apuração da eleição de vereadores para a Câmara de Olinda – (Dizia o título) – Apresentaram-se por fim as atas da eleição de vereadores da cidade de Olinda. O resultado é o mais espantoso que se pode imaginar; saíram os eleitos com 5.800 votos. A Freguesia de São Pedro Mártir* que, pela lista feita pelo Juiz de Paz, tinha 514 votantes, como se publicou pela imprensa, deu 1.604 votos. A Sé que com Beberibe tinha 630 votantes pela lista publicada pelo Juiz de Paz. Ofereceu um contingente de 4.265 listas, para o triunfo celebrado; declarando-se na ata da eleição que 3.200 listas eram de reclamantes na ocasião.

Deve-se notar que não entra em conta as listas da capela de Beberibe que ficaram inutilizadas, porque em lugar de terem sido apuradas na mesma capela foram remetidas à Câmara; e que da cidade muita gente não votou, por não ter garantias da realidade de seus votos, com as mesas, que se formaram para vencer a eleição por fás ou por nefas.

A gravura de Ângelo Agostini, revela que no calor da eleição a lista de eleitores fantasmas se multiplicaram.

Tendo dado a cidade de Olinda, 5.869 votantes, não sendo exagerado calcular por cada votante, cinco pessoas, terá a praia, cujos chefes em Olinda venceram a eleição, entre pais de famílias, filhos, aderentes, mulheres, e gente de pé no chão, e escravos. 30 mil correligionários. Dê-se um terço para o partido vencido, e teremos em Olinda uma população de 40 mil almas.

Assim cresceu a população até da decrépita cidade de Olinda com fecunda polícia do sr. Antônio Afonso. Agora digam estes trampolineiros que não tem pejo de contrariarem a qualificação feita pelos seus Juízes de Paz, e publicada na imprensa por eles mesmos, que não se correm de apresentar um número de reclamantes fictícios que contêm umas poucas de vezes essas listas, o que querem deles suponha o público! Aí não há somente descaramento para vencer uma eleição com falsificações desta natureza; os seus precedentes dão mais que esperar. A municipalidade de Olinda, único patrimônio de certos espertalhões, breve tocará à inanição. (Finalizou).

Fás = de forma lícita.

Nefas = de forma ilícita.

Pejo = vergonha

Inanição = perda de peso, fome crônica.

Decrépita = que tem muita idade, muito velha.

Juiz de Paz = resolve conflitos de menor potencial ofensivo, não tem o mesmo poder de um juiz de direito. Sua função é realizar casamentos; presidir mesas de votação; fiscalizar execuções de obras; realizar prisões e julgamentos de pequenos crimes; preside juízos conciliadores e arrolamentos.

Freguesia = no Brasil- Império era uma unidade administrativa menor. Era um lugar onde se formou uma pequena população ou um pequeno número de habitantes.

Freguesia de São Pedro Mártir = era a mais antiga do bispado de Pernambuco, criada pela Lei Provincial Nº 44, de 12 de junho de 1837, fazendo parte do 2º Circulo Eleitoral da Província, limitava se pelo norte com a Sé, pelas ruas do Carmo, Bomfim, Beco das Cortesias, bicas dos Quatro Cantos, em linha reta até chegar ao rio Beberibe, e a parte dos Arrombados (localidade entre os atuais bairros do Varadouro e Salgadinho) pertencente a da Sé; à leste com o oceano Atlântico; ao sul com a de São Frei Pedro Gonçalves do Recife (antigo povoado que ficava entre atuais: Ponte do Limoeiro, Brum e Cais do Apolo), pelo istmo, até o Forte do Buraco; e à oeste com o rio Beberibe até o Varadouro, seguindo dali pelo caminho de Santa Tereza à beira do mesmo rio, até defronte da passagem de Salgadinho, onde limita com o da Boa Vista. A Lei Provincial Nº 152, de 30 de março de 1846, inciso 5º, ligou o povoado de Beberibe, e o terreno ao sul da estrada do Forno da Cal (trecho atual de Peixinhos e Jardim Brasil), além do Porto da Madeira, à esta freguesia.  

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Diário de Pernambuco e Dicionário Topográfico, Geográfico e Histórico de Pernambuco, 1897.


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Recife, uma cidade estagnada

 

Bairro de Santo Antônio, Recife. Segunda metade do século XIX. Litografia: Alfred Ducasble.

A importância da história é que podemos fazer uma reflexão entre o passado e o presente e nos perguntar o que foi feito para melhorar nossas vidas em relação ao passado. Neste caso, a nossa querida cidade do Recife. Através desta crônica publicada no final do século XIX, por quem vivenciou aqueles acontecimentos, podemos fazer um paralelo entre o passado e o presente e mergulhar no tempo através da leitura e perguntarmos: afinal de contas o que mudou?

Recife, quarta-feira, 24 de maio de 1899

Ontem, conversando com um amigo que há dias chegara do Sul e que estava ausente desta capital desde 1889 (dez anos), tivemos o desprazer de ouvir de sua boca estas palavras dura, mas verdadeiras.

- Não tem progredido nada a sua bela terra.

- É a mesma a disposição das ruas, é o mesmo o tipo das casas, é a mesma a porcaria...

- Só é bonito o que a natureza fez.

Corramos; e não podemos conter o nosso ressentimento.

Por toda parte se manifestam os estímulos dos melhoramentos: as cidades se remodelam pelos princípios da moderna arquitetura e da moderna higiene; crescem; embelezam-se; tornam confortáveis.

Somente nós, pagando de ano para ano novos e mais pesados impostos, permanecemos numa estagnação de causar lástima.

Como se fossemos toupeiras, acostumamo-nos a viver numas tocas, numas espeluncas, numas habitações baixas, escuras, úmidas, feias e, o que mais é, rodeadas de pântanos cujas infecções palustres espalham pelos arredores o cheiro das podridões e os miasmas das febres mortais, e não há de sair disto...

Pouco a pouco vamos ficando no estado deplorável de não podermos oferecer uma hospedagem em nossa, por escárnio chamado Veneza Americana*, aos estrangeiros, nem mesmo aos compatriotas de outros Estados, porque dói-nos profundamente vê-los caírem, à nossa vista. Vítimas das pestes de que se acha saturada a nossa atmosfera.

Nós mesmos, aclimados num recanto do burgo, já temos receio de mudar de residência com medo dos micróbios dos outros bairros. E os nossos diretores políticos, preocupados com a maldita politicagem em que se estragam, se atrofiam no talento e no caráter, não fazem nenhum esforço para nos arrancar a essa degradação!

O largo do Hospício* é aquele aterrado de lixo de dez anos; o viveiro do Muniz* é aquele pasto de animais vadios, que estamos cansados de denunciar; as estradas suburbanas são aqueles lagos que nós sabemos; as vias urbanas são aquelas misérias de calçamento que os edis conhecem. Os cães são aquelas afrontas ao asseio que os fiscais não veem; as latrinas e os mictórios públicos são aquelas imundícies que a toda gente indignam; e nem uma planta da cidade existe ainda por onde se regulem as demolições e licenças para reedificações, afim de ao menos no futuro, virmos a possuir uma coisa mais decente do que a que hoje serve de cabeça de uma das mais importantes circunscrições da União Brasileira.

(Artigo publicado pelo Jornal Pequeno, há 123 anos, na data supracitada).

*Veneza Americana: denominação dada à época a cidade do Recife em comparação a cidade italiana de Veneza, que também é ilhada pelo rio. Americana, porque o Recife fica na América...do Sul. O Recife nos dias atuais é denominado “Veneza Brasileira”.

*Largo do Hospício, onde atualmente fica a Rua do Hospício.

*Muniz, referindo-se à rua.

Por: Jânio Odon/ BLOG VOZES DA ZONA NORTE.

 

 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A viagem de trem e a festa de São Severino do Ramo de 1889

 
A grande dificuldade dos fiéis chegarem a Festa de São Severino dos Ramos, em Paudalho-PE e a penosa estadia num local desestruturado no Engenho Ramos em 1889.

A tradição da romaria de São Severino dos Ramos, chamada também de “São Severino” ou São Severino do Ramo”, no município do Paudalho, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, começou na segunda metade do século XIX, quando segundo relatos, um dos filhos da proprietária do Engenho Ramos, trouxe uma estátua do santo católico, de Roma, que lá é conhecido por São Severinus de Norticum. Foi no século XIX, que se tem conhecimento das primeiras notícias de milagres atribuídas ao santo, e que hoje é referenciado na Capela de Nossa Senhora da Luz, neste município. Conta-se que as vestes do santo era azul, mas a devoção ferrenha dos primeiros romeiros que queriam tocá-lo, acabaram por rasgar suas vestes. As novas vestes, foram confeccionadas na cor vermelha, predominante no fardamento dos soldados romanos.

O certo é que a romaria de São Severino cresce a cada ano. Considerada como sendo a maior romaria do Estado e a terceira do país. Prova dessa devoção, está registrada no extinto jornal recifense, Jornal do Povo, onde o vespertino relata todas as dificuldades encontradas pelos fiéis  para chegarem até a Estação de São Severino, vindo de trem do Recife, e a falta de estrutura encontrada no local do evento, há 132 anos atrás. Veja na íntegra, todo relato desta histórica aventura.

Jornal do Povo, 22 de janeiro de 1889, terça-feira.

A FESTA DE SÃO SEVERINO

Ao partimos anteontem pelas 8 horas da manhã da Estação do Brum com destino ao Engenho do Ramos, auguramos mal de semelhante passeio pelo modo porque havia começado. O adágio: - a mau começo bom fim – mais uma vez deixou de realizar-se. Ou por falta de material rodante ou por mal direção, ou porque a venda de bilhetes naquela estação houvesse sido duas ou três vezes superior a lotação dos carros, certo é não só que grande quantidade de passageiros foi obrigada a fazer a viagem de pé, e o número destes era maior do que os que iam assentados, como também não pequeno número de passageiros, por falta de lugares, teve que ficar na “gare”(= prejuízo) e de ver, embora com seu bilhetes nas mãos, partir o trem a lhes dizer um adeus de escárnio!...

Que se deem estas aglomerações nos bondes e trens urbanos, nos dias de corridas nos hipódromos ou nos de  festa do Poço e de Caxangá, mas em uma estrada de ferro, e subvencionada pelo governo. É inadmissível.

Além da longitude da viagem, duas horas e tanto, do que resultou grave incômodo para todos os passageiros, há de entender  que os carros, desde a caixa até as molas e as rodas são construídos para suportarem  certo e determinado peso, e não mais do duplo como anteontem aconteceu, podendo daí provir ou dano para a linha, ou, o que seria pior, que se quebrasse alguma mola, dando em resultado o desmantelamento do comboio e, provavelmente, até as perdas de vidas.

O que, porém, tornou-se mais escandaloso ainda, foi o procedimento dos que dirigiram  esse serviço, ao chegar o trem na Estação da Encruzilhada; na do Brum, deixaram ficar, como dissemos, muitos passageiros, por isso que havia não mais lugar para acomodá-lo; conseguintemente, o trem ou deveria seguir expresso, ou nunca tomar, como fez, todos os passageiros em número de trinta ou quarenta que ali na Encruzilhada se achavam, e mais alguns dos que esperavam no Arraial (estação que ficava próximo ao atual Largo Dom Luiz).

Sobremodo incômodo seguiu daí a viagem até seu ponto terminal, acrescendo que os passageiros que ficaram, isto é, que deixaram de ser aceitos no Arraial, vingaram-se atirando pedras contra o trem, que bateram em alguns passageiros, e dando diversas pauladas que se empregaram em outros e até no braço de uma senhora.

Terminou-se, enfim, essa viagem massantíssima, prenuncio necessário lógico, fatal de graves incômodos e pungente tédio. Admira, pasma saber-se que tanta gente se abale daqui do Recife para ir ao Engenho do Ramos, assistir a Festa de São Severino. Igreja pequena, mal podendo acomodar umas duzentas pessoas, para perto de duas mil deixam forçosamente de assistir a esta festa, para ou ficarem a passear por sobre um terreno baixo ou desigual e descampado, e, por tanto, ao rigor do sol, e sol ardentíssimo, ou ficarem sentados dentro das palhoças, chamadas de hotéis, a comer, a beber, se porventura não julgassem mais acertado ficar por ali assentados, meditando o triste fado que a tão aborrecido passeio os conduzira.

Como pois tanta gente se abala par ir a esse passeio? Nada, absolutamente nada ali se vê que valha a pena, nem o sacrifício de um minuto, quanto mais de um dia inteiro. O engenho é uma pobre e mal tratada engenhoca; o lugar é quente e sem menor atrativo e aonde existem construídas apenas a igreja, a casa do proprietário e a do engenho; o terreno é desigual, formado de massapê e de areia à qual reflete o ardente calor de um sol abrasador; passeios não há nenhuns; lugares próximos e bonitos que convidassem a ser visitados também não o há, e como já demos a entender passa-se ali o dia ou exposto a esse rigor de um sol de verão, ou a caminhar-se de palhoça para palhoça a ver-se sempre as mesmas pessoas  e as mesmas mesas de comidas e de jogo.

Bancas de lasquinê (tipo de dominó baiano) nas palhoças, isto é, nos hotéis; prados em números de loterias relativas ao naipes das cartas no pequeno largo em frente à igreja, eis os divertimentos da grande festa que serve apenas  de proveito aos festeiros que são os que armam os hotéis e que tanto maior lucro tirarão, quanto maior for o número de incautos que para ali se dirija.

E, dali os anúncios pomposos, os reclames repetidos e as vivas descrições dos inúmeros milagres do Senhor São Severino. E não há aqui no Recife tanto santo milagroso. E, porque São Severino não fez ali o milagre de conseguir a prosperidade de tal engenhoca e a completa felicidade do respectivo dono desta? Felizmente só de ano em ano se produz semelhante festa, ou de tão tremendo e pesado cacete. Finalizou.   

Por: Jânio Odon/Blog Vozes da Zona Norte. (DIREITOS RESERVADOS)

Fonte: Jornal do Povo/Recife. Biblioteca Nacional (RJ). (bndigital.bn.gov.br)

GALERIA

A antiga Estação de São Severino, Paudalho/PE.

Casarão em ruínas do Engenho Ramos.



 

 

 

 


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

1836- Charles Darwin repudia o Recife, Olinda e a escravidão


Aos 70 anos, Charles Darwin foi correspondente do Gabinete Português de Leitura em Pernambuco.

O naturalista inglês, autor do livro “A Origem das Espécies”, formulou a teoria da evolução das espécies, anteviu os mecanismos genéticos e fundou a biologia moderna. É considerado o pai da “Teoria da Evolução das Espécies”. A teoria de Charles Darwin, é conhecida em todo o mundo e causa furor nos meios religiosos que contrariam os conceitos da criação divina, no entanto, impulsionam os seguimentos acadêmicos e científicos a aprimorarem e intensificarem estudos mais profundos no misterioso universo da evolução e transformações dos seres vivos.

No dia 27 de dezembro de 1831, o jovem Charles Darwin embarcou em mais uma aventura rumo a América do Sul, em seu navio HMS Beagle, comandado pelo capitão Robert FritzRoy. A expedição tinha como objetivo fazer um levantamento topográfico  e cartográfico da região. A missão deveria durar aproximadamente um ano, todavia, a expedição ultrapassou os quatro anos. Neste período, Darwin, conheceu ilhas, arquipélagos, lagos, rios, florestas, montanhas em todo o continente sul-americano, extrapolando barreiras, pois, a expedição chegou até a América Central, África e a Oceania. Foram exatos, três anos e três meses em terra e um ano e seis meses no mar.


O Navio HMS Beagle da expedição de Darwin, atracou no Recife em 1836.

A expedição saiu da Inglaterra, passou por Portugal, Espanha, Chile, Taiti, Nova Zelândia, Austrália, Cidade do Cabo, depois seguiu para Salvador, na Bahia, onde Darwin passou cinco dias. Depois da estadia em Salvador, a intenção era seguir direto para Cabo Verde na África, mas os ventos fortes e contrários, obrigou Charles Darwin, que tinha apenas 27 anos, a desembarcar no Porto do Recife no dia 6 de agosto de 1836. De todos os lugares em que Darwin aportou, o que lhes deixou as mais desagradáveis impressões foram o Recife e Olinda. Em seu diário de bordo ele descreveu: “É uma cidade (Recife) de aspecto enfadonho, senão repugnante; as suas ruas são estreitas, mal calçadas e imundas; as casas altas e sombrias.

Não tendo ainda terminado a estação invernosa, acrescenta, e estando alagada toda região circunvizinha, malograram-se os meus projetos de excursões pelos arredores. Ainda assim, Darwin toma uma canoa e dirige-se a Olinda, que devido a sua posição lhe parece mais amena e asseada do que o Recife. Entretanto, ali ocorre um incidente que muito contribuiu para cimentar a animada versão do grande pensador por nossos patrícios; deixemo-lo narrar o caso e vejamos se houve realmente motivo para tão profundamente magoar-se.

Devo registrar aqui, um fato ocorrido pela primeira vez durante a nossa peregrinação de quase cinco anos, isto é, ter deparado com falta de urbanidade. Em duas casas os moradores me recusaram grosseiramente e, numa terceira me concederam com dificuldade permissão para atravessar os seus quintais em demanda duma colina inculta donde eu desejava observar a região adjacente.
Sinto-me satisfeito que isto sucedesse em terra de brasileiros, porquanto não lhes tenho boa vontade. É um país de escravidão e portanto de degradação moral”.


O jovem Charles Darwin, no auto-retrato de G. Richmond.

Doze dias depois, Charles Darwin deixa Pernambuco e publica em seu diário: “Finalmente deixamos a costa do Brasil. Espero em Deus não ter mais que visitar um país onde exista a escravidão. Ainda hoje, quando me fere o ouvido um soluçar distante, recordo com dolorosa acuidade as sensações que experimentei ao perceber, passando por uma casa nas imediações de Pernambuco, os mais lamentosos gemidos, e suspeitar que era um pobre escravo que estava sendo torturado, ao mesmo tempo que compreendia a minha impotência para evitar-lhe o martírio”.

A magoa de Charles Darwin pelo Recife e Olinda parece ter passado depois de longos anos, ele já com seus 70 anos, foi correspondente do Gabinete Português de Leitura em Pernambuco, revela o Jornal do Recife do dia 21 de outubro de 1879. Três anos depois, Charles Darwin veio a falecer.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE
Fonte: Diário de Pernambuco, Jornal do Recife e Biblioteca Nacional (memoria.bn.br)

sábado, 15 de dezembro de 2018

Edifício do Hotel Central, o primeiro Arranha-Céu de Pernambuco

O Hotel Central, no Recife, foi o primeiro arranha-céu do Estado. Inaugurado em 1928. Foto: Diário de Pernambuco/2017.

Através do Decreto Estadual Nº 46.860 de 7 de dezembro de 2018, assinado pelo governador Paulo Câmara, legitimando a Resolução Nº 007 de 27 de novembro de 2018, do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, o edifício do Hotel Central foi tombado pelo valor histórico que ele representa, pois foi o primeiro arranha-céu do Estado com 8 andares. Atualmente, o mais alto edifício do Estado é o edifício Jardins Aurora, torres Capibaribe e Beberibe, localizado na Rua da Aurora, no bairro de Santo Amaro. São 42 andares e 142 metros de altura. O Residencial Terra Brasilis, no bairro de Santana, por sua vez, tem 44 andares,mas é menos alto, pois, tem 129,85 de altura.

O Hotel Central, foi inaugurado em 31 de outubro de 1928, com 80 quartos e 6 apartamentos de luxo, todos eles com telefone, um bar, uma barbearia, uma perfumaria, um salão para senhoras, um restaurante no oitavo pavimento bem como um terraço, na cobertura, de onde se tinha um grande panorama da cidade, graças à sua altura de 35,74m. O Hotel Central teve diversos hóspedes ilustres, como Getúlio Vargas, Orson Welles, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Grande Otelo e até mesmo a tripulação do Graf Zeppelin, nas vezes em que passou pelo Recife. Por ser o local mais alto da cidade, durante muitos anos, nas noites de Réveillon, eram realizadas queimas de fogos de artifício no terraço da cobertura.

A construção do edifício do Hotel Central se deu a partir de uma iniciativa do empresário greco-suíço Constantin Aristide Sfezzo, que chegou ao Recife em abril de 1922, após uma curta temporada morando na cidade do Rio de Janeiro. Sfezzo logo se inseriu na sociedade pernambucana e, pouco tempo depois de se instalar na capital, casou-se com Judith Adele von Sohsten, filha do rico, porém já falido, comerciante Julius von Sohsten.
Ao final da década de 1920, Constantin Sfezzo, buscando novos investimentos para o seu capital, resolveu construir um prédio de apartamentos para aluguel, especialmente os estrangeiros que estavam se mudando para a cidade naquele momento. Desejando desde o princípio construir um edifício alto, no qual poderia explorar o terreno de forma mais lucrativa, Sfezzo não conseguiu apoio da municipalidade naquele momento, situação somente contornada após um encontro com o urbanista francês Alfred Agache, que, naquele momento, estava visitando ao Recife a convite do Governador Estácio Coimbra.
Embora essa ideia inicial de Sfezzo tenha sido a construção de um edifício de apartamentos para aluguel, após uma proposta do comerciante George Kyrillos, Sfezzo resolveu transformar o empreendimento num hotel de luxo para atender não somente aos visitantes de fora da cidade, mas também à própria sociedade recifense. Kyrillos, cidadão de origem libanesa, já era dono de um hotel na cidade, o Palace Hotel, inaugurado na praça Maciel Pinheiro em 1925, e também proprietário de lojas de materiais elétricos e sanitários, anunciadas na época como a mais moderna e luxuosa de todo o norte do Brasil.
O local escolhido para a construção do hotel foi um terreno na esquina das ruas Manoel Borba e Gervásio Pires, no bairro da Boa Vista, onde anteriormente existia uma caixa d’água pertencente à antiga Companhia do Beberibe, destinada ao abastecimento d’água dos bairros centrais do Recife. Segundo consta no Exame Técnico realizado pela Fundarpe, tal reservatório ainda existe no subsolo do atual edifício. Após superados os obstáculos iniciais dados pela prefeitura do Recife, no dia 16 de outubro de 1927 o Diário de Pernambuco noticiou o início da construção daquele que viria a ser o primeiro arranha-céus da cidade, que, a época, só possuía edifícios com no máximo quatro pavimentos de altura, utilizando uma tecnologia de ponta: o concreto armado.
Giácomo Palumbo
A mesma notícia do Diário também nos indica que a autoria do projeto foi do arquiteto italiano Giácomo Palumbo, formado pela Escola de Belas Artes de Paris e radicado no Recife desde 1918, sendo ele o responsável pelo traço de vários edifícios públicos e privados ao longo da década de 1920, como o da Faculdade de Medicina, o Hospital do Centenário e o Palácio da Justiça, bem como um sem número de palacetes e mansões, a exemplo da pertencente ao usineiro João da Costa Azevedo, na esquina da Avenida Conselheiro Rosa e Silva com a Rua Amélia. A construção do prédio ficou a cargo da firma Brandão & Magalhães, também bastante conhecida na cidade, tanto pela construção de edifícios de luxo como pela realização de obras públicas de destaque, a exemplo da restauração realizada na Igreja da Madre Deus, em 1930.
O projeto elaborado por Palumbo está filiado ao movimento conhecido na arquitetura como Ecletismo, do qual ele foi um dos principais expoentes no Estado de Pernambuco. O Ecletismo na arquitetura é caracterizado pela profusão de elementos ornamentais, e o uso de um vocabulário ornamental oriundo dos mais diversos estilos e momentos da história da arquitetura. No Recife esse estilo, que já se fazia presente desde finais do Século XIX, se popularizou com a Reforma do Bairro do Recife, iniciada em fins da década de 1910. Naquele momento, foram edificadas por toda a cidade diversas construções que se tornaram referência para a história da arquitetura brasileira, como, por exemplo, o prédio da Faculdade de Direito do Recife, de autoria do arquiteto francês Gustave Varin, inaugurado em 1912.
No projeto para o Hotel Central, Palumbo tratou a fachada à semelhança de uma coluna, dando destaque a sua base e ao seu coroamento, onde estavam os usos mais nobres e destacados, usando uma decoração mais comedida nos andares intermediários, correspondentes, na planta, ao quartos. No primeiro e no último pavimentos os vãos são tratados com janelas em arco pleno, ao contrário dos pavimentos intermediários que possuem janelas retangulares. Ainda é importante destacar que no pavimento térreo o edifício recebeu um acabamento rústico, do tipo almofadado, à semelhança de alguns até hoje encontrados no Bairro do Recife e que o próprio Palumbo usou no seu projeto para o Palácio da Justiça. Esse tipo de composição, está ligado ao próprio surgimento da tipologia do arranha-céus moderno, criado a partir da Escola de Chicago, no final do século XIX.
Com o desejo de construir o primeiro hotel de luxo da cidade, Sfezzo não poupou esforços, seja na contratação da equipe responsável pelo projeto e construção do edifício, seja nos materiais e mobiliário utilizados para acabamentos e ornamentação da construção. As notícias de época destacam a presença de um grande lustre de cristal do saguão de entrada e salões envidraçados, além de mordomias bastante modernas, como água encanada e uma central telefônica que atendida a todos os quartos. Lamentavelmente, com a decadência enfrentada pelo hotel a partir de meados da década de 1950, muito desse mobiliário e acabamentos refinados foram perdidos, restando, nos quartos, bem poucos móveis e alguns painéis de azulejos nos banheiros. Tais azulejos, de gosto marcadamente Art Nouveau são de procedência alemã, produzidos na cidade de Gota, estado da Turíngia, pela empresa Porzellan und Fayencenfabrik Fritz Pfeffer, que funcionou entre os anos de 1882 e 1934 e que, a época da construção do Hotel Central, tinha como principal designer de produtos o artista Arnold Viegelmann.
Por:Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE.
Fonte: Portal Cultura PE, Jornal do Commercio/Recife.
HOTEL CENTRAL EM FOCO:
Cobertura do Hotel Central em 2018. Foto: Blooking.
Recepção do Hotel Central/2018. Foto: Blooking.
Parte interna do Hotel Central. Foto: Léo Motta/JC imagem
Vista da Cidade do Recife através da cobertura do Hotel Central. Foto: Blooking.
Hotel Central na década de 1950, na época dos bondes elétricos. observe os trilhos e a rede elétrica. Fotos: Blog do Fernando Machado.
Cartão Postal de 1947









quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Acidente aéreo com a equipe da Chapecoense

Acidente aéreo com a equipe da Chapecoense deixa o mundo do futebol de luto. Foto: Raul Arboleda/AFP.

29 de novembro de 2016 (terça-feira)

Setenta e seis pessoas morreram na queda do avião da delegação do time de futebol Chapecoense, na Colômbia. Apenas cinco pessoas sobreviveram ao acidente e estão em hospitais de cidades próximas à Medelín. A informação foi confirmada pelo general Azevedo, da polícia colombiana, que acompanhou o resgate na região de Antioquia, em local de difícil acesso. "Infelizmente, não há mais sobreviventes", afirmou o general em entrevista à radio Caracol de Medlín.

Entre os mortos estão os jogadores pernambucanos Kempes e Cleber Santana, que atuavam pela Chapecoense. De acordo com o general Azevedo, seis pessoas foram retiradas com vida do local do acidente, mas uma morreu a caminho do hospital. Os sobreviventes são o lateral esquerdo Alan Ruschel, os goleiros Danilo Padilha e Jackson Follman, a comissária de bordo Jimena Suárez e o narrador da rádio Oeste Rafael Henzel. Os feridos estão em hospitais das cidades de Rionegro e La Ceja.

Equipe da Chapecoense- Da esquerda para direita: 3º de pé Cleber Santana e 1º agachado, Kempes

O avião, da empresa boliviana Lamia, transportava 81 pessoas, sendo 72 passageiros (48 membros do time, 21 jornalistas e três convidados) e 9 tripulantes. O avião se partiu em três ao cair na madrugada desta terça-feira, a apenas cinco minutos do aeroporto de Rionegro. O resgate dos sobreviventes foi bastante difícil, já que a região da queda é montanhosa e chovia bastante. Três equipes com trinta pessoas cada participaram das buscas, que foram suspensas temporariamente após a confirmação das 76 mortes.

Em nota oficial o aeroporto de Medelín afirma que a causa da queda foi uma falha elétrica. Informações ainda não confirmadas indicam que o piloto do avião teria entrado em contato com a torre de controle e informado que a aeronave estava sem combustível suficiente para chegar ao aeroporto.

O avião havia saído de Guarulhos, por volta das 18h de ontem, e seguiu para a cidade de Santa Cruz de La Sierra, onde fez uma parada técnica. O Chapecoense iria jogar nesta quarta-feira contra o Atlético Nacional pela final da Copa Sul-Americana. 

Cleber Santana no Sport Recife em 2003.

CLEBER SANTANA

Cleber Santana Elton Victor, O capitão do time tem 36 e é pai de dois filhos, um de 14 e outro de 11 anos. Nascido em Abreu e Lima, no Grande Recife, Cleber deu início a sua carreira no Sport Clube do Recife em 2003. Antes da Chapecoense, onde está há dois anos, ele jogou pelo Vitória, Santos, São Paulo, Atlêtico Paranaense, Avaí, Flamengo, Criciúma, o japonês Kashiwa Reysol, e os espanhóis Atlético de Madrid e Mallorca.

Ele coleciona títulos como Campeonato Pernambucano e Nordeste pelo Sport, Campeonato Baiano e Taça Estado da Bahia pelo Viória, Campeonato Paulista pelo Santos, Liga Europa e Copa Intertoto da EUFA pelo Atlético de Madrid, Campeonato Catarinense pelo Avaí e Chapecoense, além de Melhor jogador do Campeonato Catarinense em 2012.

Kempes melhor momento na Chapecoense.

KEMPES

O pernambucano da cidade de Carpina, na Mata Norte, Everton Kempes dos Santos Gonçalves, de 31 anos, jogador do Chapecoense, está entre os mortos no acidente aéreo dessa madrugada de terça-feira. Ele viajava com a delegação para Medellín, onde iria participar da disputa final da Copa Sul-Americana, jogando contra o Atlético Nacional, na Colômbia. Kempes estava no clube Chapecoense desde o ano passado e disputava a série A do brasileirão na posição de atacante. Ele iniciou sua carreira no futebol da Portuguesa, depois atuou no Vitória, onde foi campeão Capixaba em 2006, sendo autor de um dos gols da vitória por 3 a 1 na final sobre o Estrela do Norte. 

Em 2010, o jogador foi emprestado ao Ceará para a disputa do Campeonato Brasileiro e, em 2011, Kempes jogou no América Mineiro. Em 2012, assinou contrato com o Cerezo Osaka, no Japão, e em dezembro de 2015 Kempes foi anunciado como novo reforço da Chapecoense para a temporada 2016, assinando contrato até dezembro deste ano. A cidade de Carpina está em luto. A população lamenta a morte do jogador, que estava em plena desenvoltura na carreira.

Everton Kempes dos Santos Gonçalves teve o nome inspirado no atacante da seleção argentina, Mario Kempes, que foi campeão e goleador na Copa de 1978, com seis gols. Seu pai, Amaro Gonçalves, era fã do jogador argentino e, além de Everton, batizou outros dois filhos com o mesmo nome, Erick Kempes e Cleber Kempes. Filho do meio, Everton decidiu investir no gramado aos 17 anos, já em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, onde morava com a família.

Por: Jânio Odon
Fonte: Diário de Pernambuco e G1-Pernambuco.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Senado aprova impeachment de Dilma Rousseff. Michel Temer assume Presidência

Dilma Rousseff é afastada da Presidência por 180 dias. Michel Temer assume. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.



O plenário do Senado Federal aprovou às 6h34 desta quinta-feira (12) a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff  (PT). Foram 55 votos a favor e 22 contra. Com a decisão, ela fica afastada do mandato por até 180 dias, até o julgamento final pelo Senado. Com o afastamento de Dilma, o vice Michel Temer (PMDB) assume como presidente em exercício.
A sessão começou às 10h de quarta-feira (11), adentrou a madrugada e durou mais de 20 horas. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não votou – ele só votaria em caso de empate. Dois senadores, de licença médica, se ausentaram: Jader Barbalho (PMDB-PA) e Eduardo Braga (PMDB-AM).
Dilma Rousseff e Michel Temer serão oficialmente notificados nesta quinta (12) da decisão do afastamento.

Segundo Renan, a presidente vai manter, no período em que estiver afastada, o direito à residência oficial do Palácio da Alvorada, segurança pessoal, assistência saúde, remuneração, transporte aéreo e terrestre e equipe a serviço do gabinete pessoal da Presidência.
Agora, o Senado passará a colher provas, realizar perícias, ouvir testemunhas de acusação e defesa para instruir o processo e embasar a decisão final. O julgamento será presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que também comandará a Comissão Processante do Senado.

 Senado Federal aprova abertura de processo de impeachment: 55 x 22. Foto: Beto Barata.

O impedimento definitivo da presidente depende do voto favorável de dois terços dos 81 senadores (54), em julgamento que ainda não tem data para ocorrer.

Repercussão    
Para o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, o novo governo de Temer não poderá errar e precisa fazer "grandes reformas".
"Acredito muito na sinalização. Uma nova sinalização que poderá ser dada nesse governo. Temer terá uma chance e não poderá errar. Terá o PSDB ao seu lado para minimizar os danos causados pelo governo.Certamente ele não terá apoio apenas congressual, mas da sociedade brasileira, se estiver disposto a fazer as grandes reformas", afirmou.

Humberto Costa (PT-PE), líder do governo, afirmou que o primeiro passo do PT vai ser defender o programa do partido e fazer oposição ao governo Temer.
"Ontem tivemos políticas públicas que fizeram o país avançar. Certamente esse legado será lembrado pelo povo brasileiro. Quanto a recursos vamos avaliar se cabe algum tipo de recurso a essa decisão. Nosso primeiro passo vai ser resgatar o programa do PT, acompanhar esse governo ilegítimo e defender a força das nossas propostas," disse Costa.

O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) afirmou que o dia não é de comemoração, mas que o afastamento da presidente dá uma "esperaça" para a população.
"Não é um dia de comemoração. Algumas comemorações que aconteceram foram por parte de deputados, que vieram da outra casa, e fizeram ligeira manifestação.  [...]  A expectativa é de esperança para o povo brasileiro. O Congresso tomou a decisão sintonizada com sentimento das ruas. Não é algo que possamos comemorar, mas algo que devemos levar como processo de renovação e esperança", disse Eunício.

Para o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), o afastamento de Dilma é um "absurdo". Ele voltou a argumentar, como tem feito nos últimos dias, que a presidente não cometeu crime de responsabilidade.
"Achamos um absurdo afastar uma presidenta sem crime de responsabilidade, é uma grande injustiça. Não há crime de responsabilidade. Está sendo afastada porque há maioria parlamentar contra ela [...] Agora vamos entrar em nova etapa, uma mais técnica, e eu acredito ainda que na batalha final do julgamento temos chance, porque eles vão precisar de 54 votos e tiveram 55", disse Lindbergh.
Impeachment no Senado
Depois que a câmara autorizou abertura de processo, em 17 de abril, o Senado iniciou a análise da admissibilidade, ou seja, se o relatório aprovado pelos deputados continha os requisitos mínimos: indícios de autoria e de existência de um crime de responsabilidade.

Na última sexta (6), o relatório do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), que recomendou a abertura do processo, foi aprovado por 20 votos a 5, na Comissão Especial do Impeachment do Senado, composta por 21 senadores. Só não votou Raimundo Lira (PMDB-PB), presidente da comissão.

No plenário da Câmara, o impeachment recebeu 367 votos favoráveis e 137 contrários. Houve sete abstenções e somente dois ausentes dentre os 513 deputados.
Acusação e defesa
 
Conforme denúncia assinada pelos juristas Janaina Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr., Dilma atentou contra a lei orçamentária ao autorizar despesas extras de R$ 2,5 bilhões, entre julho e agosto de 2015, mesmo ciente de que o gasto era incompatível com a meta fiscal, economia anual do governo para pagar a dívida pública.
A abertura dos créditos suplementares foi determinada por meio de decretos não numerados sem prévia autorização do Congresso.
Além disso, a denúncia aponta que a presidente usou dinheiro emprestado do Banco do Brasil para bancar juros menores concedidos a agricultores no Plano Safra de 2015. Tratam-se das “pedaladas fiscais”, artifício para disfarçar rombo nas contas públicas.
A acusação é de que ela teria contraído “operação de crédito ilegal”, já que a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe o governo de usar dinheiro emprestado de bancos públicos, controlados pelo próprio Executivo.

Durante a análise das acusações nas comissões do Senado e da Câmara, a Advocacia Geral da União (AGU) alegou que os atos não configuram crimes de responsabilidade e que também foram praticados em governos passados, sem qualquer questionamento.
Quanto aos decretos, a defesa argumentou que eles não comprometeram a meta fiscal, já que no início de 2015, o governo havia bloqueado um volume maior de recursos do Orçamento. Além disso, alegou que os decretos apenas remanejaram as despesas, sem ampliação de gastos.

Em relação às “pedaladas fiscais”, o governo sustenta que não se tratam de empréstimos dos bancos públicos, mas de contrato de serviço de pagamento dos benefícios sociais. Caso o dinheiro repassado pelo Tesouro não seja suficiente, o banco paga a diferença e recebe juros quando o governo quita a dívida. Se sobra dinheiro, o governo recebe juros do banco.
 
Governo e oposição travaram uma grande batalha no Congresso Nacional. Foto: Uesley Marcelino/Reuters.
 
Próximas etapas
 
Saiba quais serão os próximos passos da tramitação do processo de impeachment no Senado:
Com a autorização do plenário para a abertura do processo, o caso volta à Comissão Especial do Impeachment para a etapa de produção de provas, chamada de fase de instrução.
Será concedido à presidente um prazo de, pelo menos, 20 dias para apresentar a sua defesa – o prazo será fixado pelo presidente da comissão especial, senador Raimundo Lira (PMDB-PB).

Nessa fase, acusação e defesa poderão pedir a convocação de testemunhas, a realização de perícias e o envio de documentos que acharem adequados, como pareceres do Tribunal de Contas da União. Não há prazo definido para essa etapa. Por se tratar de um processo judiciário, o comparecimento das testemunhas convocadas é obrigatório – sob pena de serem conduzidas coercitivamente.

No final dessa etapa, a presidente Dilma Rousseff poderá ser interrogada. Ainda não está definido, mas é possível que se abra um prazo de até 15 dias para as alegações finais da acusação e mais 15 dias para as alegações da defesa – nenhum fato ou argumento novo poderá ser inserido.
A partir daí, haverá um prazo mínimo de dez dias consecutivos para que o relator apresente um parecer sobre a procedência ou a improcedência da acusação e para que a comissão vote – dentro desse período.

Para ser aprovado, esse parecer, que passa a ser chamado de parecer de pronúncia, necessita de maioria simples. Se isso ocorrer, considera-se procedente a acusação e começa a fase de julgamento. A decisão será lida na sessão seguinte do plenário do Senado, e o parecer, publicado no "Diário Oficial do Senado".

Esse parecer deverá ser submetido ao plenário do Senado em até 48 horas. No plenário, ainda não está definido se a acusação e a defesa terão 30 minutos cada para se pronunciar. Deverá, então, ser concedido prazo, provavelmente de 15 minutos, para que cada um dos 81 senadores se manifeste, o que poderá levar cerca de 20 horas e meia.

Para a votação valer, precisam estar presentes à sessão pelo menos 41 dos 81 senadores (maioria absoluta). Para que o parecer seja aprovado, é necessária maioria simples dos senadores presentes – metade mais um. A sessão será presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que passa a ter o nome oficial de presidente do Senado como órgão judiciário. O presidente do Senado, Renan Calheiros, poderá votar como qualquer outro senador nesta segunda votação.

Uma vez aprovado o parecer, as partes serão notificadas. Deverá ser concedido um prazo aos autores da denúncia para que apresentem em até 48 horas uma peça chamada no jargão jurídico de libelo acusatório, que nada mais é do que uma consolidação das acusações e provas produzidas. Eles também deverão apresentar um rol de testemunhas.

Em seguida, a defesa terá 48 horas para apresentar uma resposta, chamada no jargão de contrariedade ao libelo, além do rol de testemunhas. Todo o processo é encaminhado para o presidente do Supremo, a quem caberá marcar uma data para o julgamento e intimar as partes e as testemunhas. Deverá ser respeitado um prazo mínimo de dez dias para se marcar o julgamento. Se o parecer no plenário do Senado for rejeitado, o processo é arquivado e a presidente reassume o cargo.

Na data marcada, o julgamento será realizado no plenário do Senado, presidido pelo presidente do Supremo, ministro  Ricardo Lewandowski, novamente na condição de presidente do Senado como órgão judiciário.

As partes podem comparecer pessoalmente ao julgamento ou serem representadas por procuradores. Poderão ser convocadas testemunhas, que serão interrogadas pela acusação, defesa e pelos senadores, que assumem o papel de juízes. No entanto, as perguntas dos parlamentares não serão feitas diretamente por eles. Elas terão que ser encaminhadas para Lewandowski para que ele faça as indagações.

O número de testemunhas e o tempo dos depoimentos ainda precisarão ser definidos. Ainda há previsão, segundo a Secretaria-Geral da Mesa do Senado, de realização de debates orais, embora não esteja definido quem exatamente poderia falar.

 Depois disso, as partes se retiram da sessão para discussão entre senadores – não está definido quanto tempo cada um terá para se manifestar. O presidente Ricardo Lewandowski  elaborará um relatório, que é diferente de um parecer, pois não haverá juízo de valor.

 Em seguida, acontece a votação nominal. Os senadores serão chamados ao microfone para responder “sim”, “não” ou “abstenção” à seguinte pergunta: “Cometeu a acusada Dilma Vana Rousseff os crimes que lhe são imputados, e deve ser ela condenada à perda de seu cargo e à inabilitação temporária, por oito anos, para o desempenho de qualquer função pública, eletiva ou de nomeação?”
 Não há definição de como será a ordem de chamada – caberá ao presidente Lewandowski decidir essa questão. Para ser aprovado o impeachment, são necessários os votos de pelo menos dois terços dos senadores (54 votos).

Caso o impeachment seja aprovado, Lewandowski lavra a sentença, que é publicada no "Diário Oficial". Dilma é então notificada, perde o mandato e fica inelegível por oito anos. O processo é, então, encerrado. Se rejeitado o impeachment, o processo é arquivado e a presidente da República reassume.

Por: O Globo