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domingo, 5 de outubro de 2025

UM DOMINGO NO SÍTIO DO CÉU (PORTO DA MADEIRA) EM 1946

Em 1946, os moradores dos morros do Recife, viviam em situação deplorável, não havia saneamento básico, nem escadarias. A água era retirada dos cacimbões ou riachos e transportadas na cabeça ou em galões (foto). As diversões eram movidas quase sempre a base de muita "erva do pau" a tradicional cachaça. Foto: Revista O Cruzeiro/1945.
 

Um artigo me chamou atenção, publicado pelo extinto Jornal Pequeno, do Recife, em 9 de setembro de 1946, sobre a vida cotidiana dos moradores do morro nos momentos festejos de finais de semana, em especial, o Alto do Céu, que oficialmente é uma localidade da zona norte do Recife pertencente ao bairro do Porto da Madeira, mas que muita gente acha que pertence ao bairro do Alto Santa Terezinha, Água Fria ou Beberibe. O Sítio do Céu, deu origem ao Alto do Céu. Veja na íntegra o artigo completo:

O Diabo no Céu- (Dizia o título). A estrada do Porto da Madeira – Beberibe., bifurca-se pela direita e pela esquerda. A esquerda fica São Benedito (descida da atual Rua Dalva de Oliveira) e à direita, subindo, O Sítio do Céu ( ficava na atual Rua Conselheiro Barros Barreto).

No alto, a população é toda de gente humilde, não se enfurna na tristeza. Aos domingos, os que tem saúde caem nesta coisa deliciosíssima – farra. Um violão, um bombo e um reco-reco formam uma orquestra pouco sinfônica, porém, muito pernambucana.

Como há o Sítio Novo, o Sítio do Balsal, há também o Sítio do Céu. O povo dali é divertido, mas não é brigalhão. No “xelelé” domingueiro corre a “herva de pau”. É assim que lá se chama a cachaça, porém barulho nunca houve.

...Aconteceu um deste domingos um fato que arrepiou a população. Aquilo que os moradores, simplificando a coisa, chamam o céu. Virou um verdadeiro inferno, o que deu motivo a esta declaração da minha lavadeira: - Creia o sinhó, como o diabo andou solto no céu!

Não me espantei, porque vi logo que se tratava do sítio e não da abobada azul, da celestial mansão, para onde irão quando morrer, os comerciantes do Recife que não sabem, ou sabem, mas não querem explorar o povo.

Com um pouco mais de detalhe, por parte da preta lavadeira, vim a saber que, no domingo, houve uma festinha na casa de um velho morador do sítio. Era uma reunião familiar, mas, isto não proibia que pessoas sem família tomassem parte no “rela”.

Os convidados de instante a instante, molhavam a guela. Em dado momento, apareceram dois homens bem-vestido e foram entrando na dança. Para que os presentes ficassem certos de que não eram granfinos pediram um pouco de “erva de pau”. Beberam, endireitaram o laço da gravata e soltaram as pernas, nos braços de duas “morenas” que eram no momento, e serão sempre todo orgulho de nossa raça. Mas, não se sabe por que, uma das morenas foi ficando desanimada para o arrasta-pé. O desânimo aumentou e ela resolveu deixar o cavaleiro. Uma vez livre, saiu a dizer qualquer coisa, baixinho, no ouvido das outras morenas. E o fato é que ninguém quis dançar com o cavaleiro.

Este, nota que está sobrando, mas, não lhe convém dar parte de fraco. Toma outra “erva de pau”. Ingerida a droga dirige-se a orquestra e pede para o maestro que era o que tocava bombo, tocar a marcha: “Sai cartola”. O maestro não atende. O cavaleiro pede outra vez, insiste no pedido e, por fim, chega à conclusão de que não pode dançar.

Então, só lhe ocorreu, no momento, fazer uma coisa. E fez. Aproximou-se do bombo e varou-o com um murro. Fechou-se o tempo. Pela primeira vez teve barulho no Céu. Houve caras e pernas quebradas.

Por isso, é que se diz lá na Água Fria, onde moro, que o diabo andou solto no céu. No Sítio do Céu, bem entendido.

Por: Jânio Odon/ VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Jornal Pequeno (Recife)

sábado, 8 de março de 2025

No início do século XX, pais protestaram contra a falta de escolas em Caixa D'Água e Caenga

 

No início do século XX, as escolas na região de Beberibe, eram poucas e precárias. Foto: Ilustrativa.

Este Blog procura sempre retratar os fatos importantes ocorridos principalmente na Zona Norte do Recife e de Olinda em tempos passados, para que o leitor tenha uma noção exata das dificuldades enfrentadas pelos nossos antepassados desta região periférica da cidade.

Encontrei nas páginas antigas do extinto jornal recifense “A Provincia”, de 20 de junho de 1923, a publicação de uma carta feita por pais de alunos da então povoação de Caixa D’Água, para chamar a atenção do diretor da Instrução Pública do Recife, sobre a falta de escolas e professoras próximo a povoação. Nesta época, Caixa D’Água era um pequeno povoado pertencente ao distrito de Beberibe, do município do Recife. A carta dizia o seguinte:

As escolas de Beberibe- (dizia o título) – Senhor diretor de “A Provincia”. Pedimos a V. Sª o obséquio da publicação desta.

É lamentável que o ilustrado diretor da Instrução Pública, atenda ao bem-estar das cinco professoras que foram nomeadas para Beberibe, com manifesto prejuízo dos alunos que moram distantes do povoado (referindo-se a Beberibe) e de Porto da Madeira, ponto onde as ditas professoras residem por terem bondes à porta.

Não há muito tempo tínhamos uma escola no Caenga, que muito servia às alunas que residiam em Caixa D’Água. Essa escola desapareceu para se localizar no povoado, junto à parada dos bondes, muito embora se reunisse duas em uma só casa, um pardieiro, sem ar, sem luz, estreito e sem acomodações, tanto que, uma das professoras dá aula pela manhã e a outra à tarde, e deste modo converteram o insalubre casebre em núcleo escolar, com o consentimento reprovável dos senhores da Instrução Pública Estadual!

O nosso fim escrevendo-vos esta é para chamar a atenção do digno diretor da Instrução Pública para o caso, lembrando-lhe a conveniência de ser localizada uma dessas escolas em Caenga ou em Caixa D’Água e outra perto da estrada do Cumbe e Acampamento.

Assim distribuídas, os nossos filhos residentes distante do povoado e de Porto da Madeira poderão frequentar as aulas; ao contrário disto, as ditas professoras apenas farão jus ao ordenado, sem prestarem auxílio a quem precisa de instrução.

Esperamos que o ilustrado dr. da Instrução Pública do Estado atenderá nosso pedido, que é justíssimo. – Pais de família – Recife, 19 de junho de 1923. (Finalizou).

*Pardieiro – prédio velho ou arruinado.

*Instrução Pública Estadual – É o mesmo que Secretaria de Educação do Estado.

* Caixa D’Água – Atualmente é um bairro pertencente ao município de Olinda.

*Cumbe – Era um pequeno povoado que existia próximo a estrada de mesmo nome, atual Avenida Hildebrando de Vasconcelos, no bairro recifense de Dois Unidos.

*Acampamento – Povoação às margens da antiga estrada do Acampamento, estrada esta, que começava no Córrego do Tiro, atual professor José Amarino dos Reis e terminava um pouco antes da Estrada do Cumbe, atual Avenida Hildebrando de Vasconcelos. O Acampamento deu lugar a extensa rua Uriel de Holanda, no bairro recifense de Linha do Tiro. Os nomes Linha do Tiro e Acampamento, surgiram porque no final do século XIX e início do século XX, o exército vinha fazer instrução de tiro nesta região e armavam seus acampamentos no local.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Jornal A Provincia e arquivo pessoal.


terça-feira, 4 de março de 2025

Fraude na eleição para vereadores da Vila de Olinda em 1844

Em 1844, os votos do povoado de Beberibe na eleição para vereadores da Câmara de Olinda, foram anulados, no vergonhoso pleito eleitoral. Foto: Museu da Cidade do Recife.

Não é de hoje que as manobras políticas acontecem, as fraudes e corrupções nas eleições sempre existiram, como este episódio que aconteceu na eleição para vereadores à Câmara Provincial de Olinda em 1844, na época do Brasil-Império, do recente imperador D. Pedro II, que começou a governar o Brasil em 1840. Era da escravidão africana. O Presidente da Província de Pernambuco era Tomás Xavier Garcia de Almeida, que governou a Província de Pernambuco, num ano em que tivemos cinco governadores em virtude da Revolução Praeira, onde a briga política entre os membros do Partido Liberal e do Partido Conservador era intensa. Diante de um cenário político turbulento, ações fraudulentas como a que aconteceram em Olinda, demonstra o quanto era crítico e desafiador a situação da administração pública.  O Diário de Pernambuco em 17 de dezembro de 1844, onde votaram mais eleitores do que havia nas atas eleitorais. Um escândalo de imoralidade denunciado pelo jornal da seguinte forma:

Apuração da eleição de vereadores para a Câmara de Olinda – (Dizia o título) – Apresentaram-se por fim as atas da eleição de vereadores da cidade de Olinda. O resultado é o mais espantoso que se pode imaginar; saíram os eleitos com 5.800 votos. A Freguesia de São Pedro Mártir* que, pela lista feita pelo Juiz de Paz, tinha 514 votantes, como se publicou pela imprensa, deu 1.604 votos. A Sé que com Beberibe tinha 630 votantes pela lista publicada pelo Juiz de Paz. Ofereceu um contingente de 4.265 listas, para o triunfo celebrado; declarando-se na ata da eleição que 3.200 listas eram de reclamantes na ocasião.

Deve-se notar que não entra em conta as listas da capela de Beberibe que ficaram inutilizadas, porque em lugar de terem sido apuradas na mesma capela foram remetidas à Câmara; e que da cidade muita gente não votou, por não ter garantias da realidade de seus votos, com as mesas, que se formaram para vencer a eleição por fás ou por nefas.

A gravura de Ângelo Agostini, revela que no calor da eleição a lista de eleitores fantasmas se multiplicaram.

Tendo dado a cidade de Olinda, 5.869 votantes, não sendo exagerado calcular por cada votante, cinco pessoas, terá a praia, cujos chefes em Olinda venceram a eleição, entre pais de famílias, filhos, aderentes, mulheres, e gente de pé no chão, e escravos. 30 mil correligionários. Dê-se um terço para o partido vencido, e teremos em Olinda uma população de 40 mil almas.

Assim cresceu a população até da decrépita cidade de Olinda com fecunda polícia do sr. Antônio Afonso. Agora digam estes trampolineiros que não tem pejo de contrariarem a qualificação feita pelos seus Juízes de Paz, e publicada na imprensa por eles mesmos, que não se correm de apresentar um número de reclamantes fictícios que contêm umas poucas de vezes essas listas, o que querem deles suponha o público! Aí não há somente descaramento para vencer uma eleição com falsificações desta natureza; os seus precedentes dão mais que esperar. A municipalidade de Olinda, único patrimônio de certos espertalhões, breve tocará à inanição. (Finalizou).

Fás = de forma lícita.

Nefas = de forma ilícita.

Pejo = vergonha

Inanição = perda de peso, fome crônica.

Decrépita = que tem muita idade, muito velha.

Juiz de Paz = resolve conflitos de menor potencial ofensivo, não tem o mesmo poder de um juiz de direito. Sua função é realizar casamentos; presidir mesas de votação; fiscalizar execuções de obras; realizar prisões e julgamentos de pequenos crimes; preside juízos conciliadores e arrolamentos.

Freguesia = no Brasil- Império era uma unidade administrativa menor. Era um lugar onde se formou uma pequena população ou um pequeno número de habitantes.

Freguesia de São Pedro Mártir = era a mais antiga do bispado de Pernambuco, criada pela Lei Provincial Nº 44, de 12 de junho de 1837, fazendo parte do 2º Circulo Eleitoral da Província, limitava se pelo norte com a Sé, pelas ruas do Carmo, Bomfim, Beco das Cortesias, bicas dos Quatro Cantos, em linha reta até chegar ao rio Beberibe, e a parte dos Arrombados (localidade entre os atuais bairros do Varadouro e Salgadinho) pertencente a da Sé; à leste com o oceano Atlântico; ao sul com a de São Frei Pedro Gonçalves do Recife (antigo povoado que ficava entre atuais: Ponte do Limoeiro, Brum e Cais do Apolo), pelo istmo, até o Forte do Buraco; e à oeste com o rio Beberibe até o Varadouro, seguindo dali pelo caminho de Santa Tereza à beira do mesmo rio, até defronte da passagem de Salgadinho, onde limita com o da Boa Vista. A Lei Provincial Nº 152, de 30 de março de 1846, inciso 5º, ligou o povoado de Beberibe, e o terreno ao sul da estrada do Forno da Cal (trecho atual de Peixinhos e Jardim Brasil), além do Porto da Madeira, à esta freguesia.  

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Diário de Pernambuco e Dicionário Topográfico, Geográfico e Histórico de Pernambuco, 1897.


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

1960 - Faltava uma ponte para o ônibus da Bomba do Hemetério passar

Em 1960, o Departamento de Trânsito do Recife abriu concessão para o funcionamento da primeira linha de ônibus regularmentar da Bomba do Hemetério, mas faltava uma ponte sobre o riacho que vinha do Córrego João Francisco. Foto montagem ilustrativa. 

No dia 15 de novembro de 1953, o prefeito do Recife, José do Rego Maciel, inaugurou as primeiras linhas de ônibus da Bomba do Hemetério das Empresas Norte Aparecida e São Marcos. Só havia um problema, a Estrada da Bomba do Hemetério era de terra batida, bastante esburacada e que havia mais dois grandes empecilhos que dificultavam o tráfego dos ônibus na localidade, que eram os dois riachos que cruzavam a estrada. O primeiro, era o riacho entre as ruas Baixa José Ribeiro e São Sebastião. E o segundo, era o riacho que vinha do Córrego João Francisco e cruzava a estrada até a rua São Gabriel. Fato esse, que fez com que esses ônibus prestasse um péssimo serviço a comunidade.

Durante muito tempo, foram tomadas medidas paliativas sobre o riacho da rua Baixa José Ribeiro, como: aterros e uso de manilhas e ponte improvisada. Em relação ao riacho do Córrego João Francisco, o terreno era muito acidentado, o que impossibilitava a passagem de veículos. Os primeiros ônibus, retornavam antes da sede do clube carnavalesco Tribo Canindé. E muitos nem chegavam a entrar e retornavam da Estrada Velha de Água Fria.

Com o avanço das obras de pavimentação que vinha desde à Avenida Norte, seguindo pelo Córrego do Bartolomeu em direção ao Córrego de Euclides, Alto José Bonifácio e Bomba do Hemetério, criou-se boas perspectivas para a exploração do transporte público nesta região. A Expresso 18 de Setembro se antecipou e criou as linhas do Alto José Bonifácio e da Bomba do Hemetério.

Em janeiro de 1960, era inaugurada a linha Bomba do Hemetério pertencente a Expresso 18 de Setembro, com apenas quatro ônibus, que não ultrapassavam o riacho que vinha do Córrego João Francisco, porque não havia uma ponte.

O Diário de Pernambuco, em 24 de janeiro de 1960, publicou uma nota a respeito do assunto e a implantação dos ônibus elétricos na capital pela CTU. A nota dizia o seguinte: Depende apenas de uma pequena ponte a criação de uma linha de ônibus para a Bomba do Hemetério – (Dizia o título) – Os moradores do Alto Santa Terezinha (em Água Fria e Casa Amarela) estão apelando para as autoridades municipais: que o empreiteiro contratado apresse e conclua dentro do mais breve possível o serviço da pequena ponte sobre o riacho que recebe às águas que descem do Córrego João Francisco. A medida é de grande importância porque significa garantia de transportes beneficiando todo um aglomerado de núcleos populares.

Uma linha de ônibus inaugurou-se há duas semanas (referindo-se a Expresso 18 de Setembro), ali, cobrindo todo o percurso da Bomba do Hemetério, mas apareceu o entrave da pequena ponte impedindo a cobertura de maior percurso e a implantação de maior número de veículos. Agora os moradores querem que a pequena ponte fique pronta logo, a fim de que a nova linha vá até a padaria Cruz de Malta* e até mais além no Largo do Alto Santa Terezinha (referindo-se à praça da Bomba do Hemetério). E dúvidas nenhumas não existem: proprietários de ônibus estão interessados na exploração da nova linha.

Hoje, estão trafegando quatro carros; quando a pequena ponte estiver pronta este número poderá ser dobrado.

Ônibus tendem a sair do asfalto – O problema dos transportes no Recife pode sofrer uma mudança para melhor. Os habitantes dos morros, dos córregos e dos núcleos mais afastados sempre tiveram razão em reivindicar que as linhas de ônibus penetrassem mais, se estendessem, se adentrassem. Os moradores desses lugares, a maior parte da população citadina, não poderiam e não podem continuar enfrentando caminhadas longas para apanhar ônibus no asfalto já superlotados.

No entanto, a coisa tende a mudar. São os próprios empresários que compreendem que indo ao encontro das populações é que poderão sobreviver como tais. Uma expansão para os seus negócios já que terão de enfrentar a Companhia de Transportes Urbanos – CTU com os seus ônibus elétricos.

E se a CTU vingar e se conseguir botar em circulação grande número de veículos (que são mais de asfalto), estar-se-á uma concorrência benéfica para os recifenses com minoração do problema do transporte. Muitas empresas estão procurando novas linhas. Subindo o mais possível os morros; penetrando os córregos; indo a novos terminais localizados nos mais distantes núcleos.

Prefeitura deve continuar preparando terreno – Para que isso se dê a Prefeitura deverá ir continuando a preparar condições favoráveis. Não só nas grandes obras de ligações inter-suburbanas (como a de Beberibe-Casa Amarela), mas também na realização das chamadas pequenas obras. Na conservação e na substituição do que existe de imprestável.

O exemplo a que acima nos referimos mostra que uma pequena ponte pode atrapalhar todos os planos. A sua substituição era uma necessidade; mas esses trabalhos estão emperrados. Os moradores mais otimistas acham que o serviço poderá ser entregue dentro de oito dias; outros estão alarmados e acham que a coisa poderá demorar até cinco meses mais. Houve dia nenhum trabalhador do empreiteiro, que tem contrato com a Prefeitura, apareceu. Não existe nenhum sinal até agora de vergalhão de ferro para o assentamento das pranchas de cimento.

Urge que a Edilidade faça ver ao empreiteiro a necessidade do melhoramento ser entregue logo à população. O que quer dizer: linha garantida de oito ônibus (para começar) com a placa “Bomba do Hemetério” e com o terminal no Largo do Alto Santa Terezinha (referindo-se ao Largo da Bomba). Beneficiados pela nova linha serão os moradores não somente da Bomba do Hemetério e do Alto Santa Terezinha, mas, igualmente, os do Córrego do Bartolomeu, Alto da Alegria, Córrego João Francisco, do Cotó e outras localidades. (Finalizou).

*Padaria Cruz de Malta – Essa padaria ficava na curva para chegar na Praça da Bomba, do lado esquerdo, onde atualmente, funcionam diversos pequenos comércios pertencentes aos herdeiros de Seu João do açougue, antigo comerciante da Bomba. A padaria pertencia ao português Albino Nogueira da Silva, que depois construiu a nova padaria do lado direito com nova denominação “Padaria Areosa”. Atualmente no local, funciona uma movelaria.

* A pequena ponte Foi construída na então, Estrada da Bomba do Hemetério, sobre o riacho que vinha do Córrego João Francisco no cruzamento com a Rua São Gabriel, pela firma Souza Lima em 1961.

* Expresso 18 de Setembro – Serviu a linha da Bomba do Hemetério de janeiro de 1960 a 1980, quando foi vendida a Empresa São Paulo.

* Em 21 de agosto de 1966, a CTU criou a primeira linha de ônibus (à diesel) do Alto Santa Terezinha.

* Em novembro de 1968, o prefeito Augusto Lucena, inaugurou o calçamento da Rua Bomba do Hemetério.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Diário de Pernambuco e Diário Oficial do Estado.

 

 

 

 

 

sábado, 20 de abril de 2024

Abusos e arbitrariedades do subdelegado de Beberibe

 

Em 1875, o subdelegado de Beberibe, Manoel Maria, morava com duas mulheres na mesma casa, não policiava o povoado e promoveu um inventário para si dos bens de uma lavadeira que acabara de falecer. Os moradores do povoado de Beberibe clamaram por sua exoneração. 

 Este fato ocorreu há 148 anos atrás, no povoado de Beberibe, ao norte do Recife. Os moradores do povoado estavam indignados e insatisfeitos com os excessos e a falta de compromisso com que o subdelegado Manoel Maria conduzia o policiamento daquele arrabalde, que começava a crescer com a chegada do trem a vapor, pouco mais de três anos. Beberibe nesta época, ainda não tinha luz elétrica. Tudo era na base do lampião e do candeeiro, mas era um lugar aprazível, com um clima agradável e um rio ainda propício para o banho, lugar de veraneio, com muitos sítios e casarões e passeios a cavalo. Mas havia também, muita pobreza ao redor, muitos casebres e muitos problemas com os gatunos, que arrombavam residências para furtar objetos, roubavam animais. Havia também, muitas brigas durante as bebedeiras, com uso de facas e peixeiras. Estes eram os delitos mais comuns neste centenário povoado.

O jornal recifense “A Província” em 18 de setembro de 1875, publicou uma carta-denúncia enviada pelos moradores do povoado de Beberibe em desfavor do subdelegado Manoel Maria, solicitando ao governador João Pedro Carvalho (Presidente da Província de Pernambuco) sua exoneração e a troca de todo efetivo destacado em Beberibe. Leia na íntegra a carta:

Senhores redatores da Província – Peço-lhes por especial favor que chamem a atenção do excelentíssimo Sr. Presidente da Província, visto que o Sr. chefe de polícia continua em sua costumada sonolência, sem providenciar no sentido de melhorar a segurança dos habitantes do povoado de Beberibe, conservando como subdelegado* um tal de Manoel Maria, homem desmoralizado, sem critério nem força moral, corrompido por todos seus atos.

O escândalo deste celebérrimo subdelegado chega a tal ponto, que na casa em que mora tem mulher, e filhas já moças, nesta mesma casa uma concubina teúda* e manteúda* com grande número de filhos!

Não é preciso dizer-se nada mais para provar a sua moralidade. Seria melhor que Sua Excelência mandasse retirar as praças* de polícia que aqui estão destacadas, as quais vivem em continuadas vadiações, empregando o maior tempo em dormir. O subdelegado é contínuo de uma repartição, vai às 8 horas, e volta às 4 e meia da tarde, ocultando-se depois que chega da repartição, de forma que ninguém o descobre; e assim ficamos observando os escândalos, as insolências dos que aqui vivem dia e noite armados de pistolas, e facas aterrorizando as famílias, que aqui residem.

Dos roubos já não se fala; há dias foram os larápios à taberna do tenente Silvestre, mas encontrando grande resistência, por ter o dono arrumado uns bancos por trás das portas, deixaram de realizar o roubo. E assim e tudo mais, sem que possamos contar com a garantia e segurança por parte da polícia.

Há dias, aqui no lugar Porto da Madeira, faleceu Maria Brendé, lavadeira, deixando meios de ser sepultada no cemitério de Olinda, mas o conceituado subdelegado dirigiu-se ao lugar e tratou de inventariar os poucos bens da finada, mandando levá-los para casa de sua residência. Os bens constituía-se em um baú, com alguma roupa, uns ourinhos, duas cabras, sendo uma parida, que mandou para casa, que tinha um filho que precisava de leite, e a outra vendeu a uma tal de Izabel por 4 mil réis, e um tacho de cobre que procurava venda por 10 mil réis, mais uma casinha de palha que ele quer 40 mil réis.

Depois deste inventário entendeu que devia mandar sepultar a infeliz na capoeira, aonde existe os restos de uma capela denominada São Boa Ventura*, no lugar Caenga, em Beberibe!

Os fatos deste subdelegado são tantas que pedimos ao Exmo. Sr. Presidente que mande averiguá-los. Este mesmo subdelegado já havia sido demitido a bem do serviço público em 1869.

*Subdelegado – É o mesmo que comissário.

*Praças da polícia – É o mesmo que soldados.

*Manteúda – É a mulher que é mantida financeiramente por um homem casado, sendo tratada como se fosse a segunda esposa.

*Teúda – É definida como a amante de um homem casado, sem qualquer tipo de suporte financeiro do companheiro.

*Capela São Boa Ventura – Era uma capela que ficava na estrada do Caenga, próximo ao atual cemitério de Águas Compridas. Restos das ruinas desta capela foram usados durante a construção deste cemitério que foi inaugurado em 1888.

Por: Jânio Odon/Vozes da Zona Norte.

Fonte: Jornal A Província, do Recife; charge reproduzida da Revista do Brasil (SP).

segunda-feira, 26 de junho de 2023

A difícil vida dos mocambeiros

 

O desolamento de uma mulher em seu mocambo, num olhar distante, sem perspectiva de melhores dias. Foto: Coleção Josebias Bandeira/Fundaj.

Não foi fácil para os moradores dos mocambos do centro do Recife, receberem à notícia de que seriam expropriados pela nova política de modernização da cidade. A chamada “campanha” promovida pela Liga Social Contra o Mocambo no governo do interventor federal, Agamenon Magalhães, não cumpriu seu papel social como estava escrito. A Liga, que depois passou a ser Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM), preocupou-se mais em combater as investidas do Partido Comunista e suas ramificações nas comunidades, do que, propriamente, da real situação de miséria em que se encontravam as famílias carentes, moradores dos mocambos. Houve uma grande negligência nos assentamentos que vieram a surgir, e nas invasões em massa provocados por essas pessoas nas regiões de encostas, morros, córregos e alagados. Foram expostos a própria sorte. Sem transportes, escolas, postos médicos, água encanada e energia elétrica, além de serem lesados na hora de indenizá-los. O extinto Jornal Pequeno, em 27 de dezembro de 1945, publicou uma matéria que mostrava essa triste realidade e que o blog Vozes da Zona Norte, reproduziu na íntegra para os leitores:

Mais mocambos e maior abandono, a obra social do sr. Agamenon (Dizia o título).

Enquanto o sr. Agamenon Magalhães atirava-se furiosamente contra os mocambos de Santo Amaro e de outros pontos mais centrais, milhares e milhares dessas humildes choupanas iam surgindo diariamente nas zonas suburbanas transplantando-se para longe a paisagem que os olhos do ex-interventor não podiam contemplar. O morador do mocambo após assistir á derrubada impiedosa de residência, partia em busca de outras plagas, onde pudesse construir uma tapera para o seu lar.

As casinhas apareceram menores com um aspecto de miséria mais impressionante, porque o dinheiro era também mais curto. Não foram poucos os mocambos avaliados em cinco e mais milhares de cruzeiros e a famigerada “campanha” indenizava por duzentos ou trezentos. E não deixavam nada, nem mesmo a madeira para o morador.

Os mocambos foram retirados do centro do Recife e tomaram rumo dos acostamentos de barreiras, morros, córregos e alagados da periferia. Foto: Josebias Bandeira/Fundaj.

Em Olinda – Na vizinha cidade do norte, por exemplo, o número de mocambos construídos nestes últimos anos, atinge cifras sem precedente, como se pode deparar do quadro abaixo:

1939 – Existiam 2.552 mocambos

1940 – Existiam 3.664 mocambos

1941 – Existiam 4.740 mocambos

1942 – Existiam 5.359 mocambos

1943 – Existiam 5.586 mocambos

1944 – Existiam 6.093 mocambos

1945 – Existiam 7.925 mocambos

Esses dados foram colhidos na Prefeitura de Olinda, e não correspondem, exatamente, á verdade. É pelo menos o que deixa crer o lançador daquela municipalidade, o qual nos informou que “inúmeros mocambos vêm escapando à caneta tendo muita gente construído o seu casebre até sem licença”.

Entrando ou não nas contas da Prefeitura, a verdade é que os mocambos em Olinda, são cada dia mais numerosos espalhando-se de preferência, na Estrada de Beberibe, Salgadinho, Matumbo, Sapucaia, Caenga, Campo de Goiás, Ladeira do Monte, Estrada do Cemitério, Estrada do Rio Doce, Praia do Rio Doce, Muntrizes, Jatobá, Caravelas, Forno da Cal, Peixinhos, Avenida Nova, Sítio Novo, Sítio dos Arcos e no Istimo.

Nas ruas sem nome e nos becos intricados desses pontos longínquos, o morador do mocambo, batido de sua antiga residência, foi construir o novo lar. Muitos desses tugúrios, naturalmente, escaparam às vistas dos fiscais da Prefeitura. Muitos outros hão de ter faltado á estatística, num arranjo de última hora, para não mostrar tão claros os efeitos desastrosos da “campanha”.

Esses efeitos estão estampados na fisionomia dos que habitam os mocambos, na sua voz arrastada, no seu desespero sem remédio. Expulsos do centro usurpados nos seus direitos e explorados na sua economia, eles guardam o ódio, alimentado pelas contingências, à espera de um dia melhor.

Falam os moradores de mocambos – Logo ali, perto do Matadouro, em Peixinhos, no local que dá entrada para uma zona toda cheia de mocambos; o repórter encontrou três moradores da rua da Areia. Os três palestravam sobre a falta de bondes e esconjuravam a vida do pobre.

- “Vida de cachorro, essa da gente”, sem se esquecerem de citar Agamenon e sua “campanha”, no meio da discussão.

Falamos a seguir com seu Inácio, residente ali há mais de dez anos. Disse-nos ele que, quando comprou o seu, havia por ali, poucos mocambos. Porém, de 1940 para cá, construíram-se mais de mil. Gente ainda das bandas de Santo Amaro, que teve seus mocambos derrubados.

Ouvimos também, a senhora Severina, moradora da rua São Sebastião, em Peixinhos. Declarou-nos essa senhora que perdeu dois mocambos, um dos quais havia custado mais de 5 mil cruzeiros e foi indenizado por 600 cruzeiros. E ao chegar em casa, notou, conferindo o dinheiro, que o sr. Alfredo...lhe dera 590 cruzeiros em vez de 600. Referiu, também, que muitos morreram de desgosto, longe dos seus mocambos devastados pela febre de destruição do então governante. Que outros enlouqueceram e, ficaram de mãos erguidas para o céu, diante de seus mocambos reduzidos a montões.

Crianças, moradores dos mocambos da antiga rua da Areia, em Peixinhos. Foto: Jornal Pequeno/1945.

Os pequenos – É, esses mocambos também são moradia de garotos, crianças nascidas na lama, habituadas ao charco. Vivem assim, como nasceram, sem que mereçam dos poderes competentes uma atenção qualquer. Era Peixinhos, zona habitada por grande número de famílias, não há uma só escola pública – nem estadual, nem municipal. Um só estabelecimento de ensino, onde aquelas crianças possam assegurar-se o direito de saber alguma coisa, não existe em toda aquela redondeza.

A escola dos meninos pobres de Peixinhos é o alagado fétido, onde vão pescar siris e caranguejos. Este é, sem dúvida, um dos mais dolorosos efeitos dessa “campanha contra o mocambo”, a qual na verdade, foi dirigida contra o morador do mocambo. Em outros locais menos distantes, os garotos podiam matricular-se num grupo escolar, frequentar as aulas, aprender a assinar o nome. Arrancando-lhes essa possibilidade e atirando-os ao charco, o ex-interventor apenas, levantou-se impunemente contra essas pobres crianças, tornando-lhes mais difícil o caminho da vida.

Registe-se este e outros fatos aqui citados, como testemunhos irrefutáveis do ódio que foi a bandeira de governo do sr. Agamenon Magalhães e que ele fez tripudiar, especialmente sobre a mágoa dos pequeninos e desamparados.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE.

Fonte: Jornal Pequeno.


domingo, 11 de junho de 2023

Antigos conflitos políticos de Beberibe

 

Aspecto do povoado de Beberibe em 1904. Homem sobre uma ponte do rio Beberibe. Foto: Cartão Postal Brasil/28.6.1904.

O coronel Luciano Eugênio de Mello era considerado na segunda metade do século XIX, um dos homens mais poderosos e influentes de Beberibe. Possuía várias propriedades de terra, inúmeros imóveis e dezenas cabeças de gado. Foi ele que cedeu o terreno na Estrada do Caenga para a construção do novo cemitério público de Beberibe (atual Cemitério de Águas Compridas), que foi inaugurado por ele em 1888, onde firmou um contrato com a Câmara Municipal de Olinda, com o direito de cobrar por todos os sepultamentos. Os opositores, não perdoavam. O acusavam de abuso de poder; de não enterrar os indigentes; manter o cemitério como propriedade particular; de criar o gado solto, prejudicando as plantações dos pequenos agricultores que tinham as suas plantações destruídas pelos animais do coronel, e por praticar o desmatamento para produzir carvão. O coronel Luciano Eugênio, sempre rebatia às críticas com notas no Diário de Pernambuco, mas a oposição ferrenha, sempre contra-atacava sem piedade.

Para muitos, o coronel Luciano Eugênio de Mello, era um bom homem que ajudava muita gente e trazia muitos benefícios para o povoado de Beberibe. Para outros, era uma pessoa arrogante, intransigente, autoritário e explorador.

Luciano Eugênio de Mello, nasceu em 1838, em Beberibe e faleceu no mesmo povoado, em 1º de janeiro de 1911 aos 73 anos. Foi oficial da Guarda Nacional do Império, chegando ao posto de coronel. Foi prefeito de Olinda, presidente do Conselho Municipal de Olinda e subdelegado de Beberibe. Era casado com a Sra. Maria Alves de Mello e teve cinco filhos. Até hoje, a Família Eugênio de Mello é reconhecida, principalmente no bairro de Caixa D’Água, onde seus descendentes eram grandes proprietários de terras. Há uma escola no bairro que leva o sobrenome da família através de outro ilustre membro: Valeriano Eugênio de Mello (coronel Vavá).

A liderança e o prestígio político do coronel Luciano Eugênio de Melo renderam algumas críticas contundentes de seus opositores na Câmara Municipal de Olinda conferidas pelos senhores, Manoel Lopes Machado Júnior e Veritas, publicadas pelo “Jornal do Recife” na segunda metade do século XIX :

Jornal do Recife, em 10 de julho de 1889, publicou as críticas conferidas pelo Sr. Manoel Lopes Machado Júnior, da seguinte forma:

O Sr. Luciano Eugênio de Mello labora num equívoco quando diz na sua publicação de ontem no Diário de Pernambuco, que o Cemitério de Beberibe (atual Cemitério de Águas Compridas) é propriedade particular, e que por isso os cadáveres dos indigentes devem ter sepultura no cemitério público.

Em Beberibe não há outro cemitério público senão o que com a Câmara Municipal de Olinda, contratou o Sr. Luciano de Mello em virtude da lei nº 1862, declarando esta que o contrato ficaria sujeito à aprovação do poder competente (Assembleia Provincial).

Não sei, pois, como vista daquela lei o cemitério é particular e tenha o Sr. Mello o direito de recusar sepultura aos pobres. É certo que Sua Senhoria escolheu do patrimônio da igreja (católica) para a construção do dito cemitério, mas também é certo que procurou para levantá-lo a efeito o concurso dos pobres.

Que ele cedesse em favor da igreja os proventos que devia auferir em razão do contrato, faz o seu dever indenizando a da renda do terreno, que, sem deliberação da irmandade serviu-se dele, mas que daí queira inferir que o cemitério é particular, é o que ser-lhe difícil explicar. (Finalizou).

Crianças caminhando nas águas do rio Beberibe em 1908. Foto: Manoel Tondella.

O Jornal do Recife, em 26 de janeiro de 1890, publicou as críticas conferidas pelo Sr. Veritas, da   seguinte forma:

A freguesia de Beberibe como parte componente do município de Olinda, não podia deixar, por sua vez, de sentir os efeitos da desídia criminosa do ex-representante da Câmara em prejuízo dos pacíficos e laboriosos habitantes, e sempre em proveito do mandão local.

Devastadas as matas pela indústria do carvão, onde Luciano de Mello auferia grandes lucros, foram esses campos transformados em campo de criação contra a expressa determinação da lei que as considerou campos agrícolas.

Em Beberibe, para que possam lucrar os poucos agricultores as suas lavouras, são forçados a construir cercas com grande trabalho e despesas para as garantir contra o gado solto, o que muitas vezes não é bastante, tendo de se conformar em ver mudos e quedos as suas lavouras destruídas, resultado de tantos dias de labor, para não incorrer no desagrado de Luciano de Mello, o grande explorador da indústria pastoril naquele lugar.

O Dr. Ernesto de Aquino, membro da intendência, morador ali, conhece de perto da verdade, e confiando no seu critério e independência do caráter, muito poderá fazer em bem daqueles infelizes e em respeito à lei. Nessa povoação mora o ex-vereador Reis, o celebre capitão da barca de Noé, que conhecendo todos esses fatos nunca procurou tomar providência para minorar os prejuízos daqueles laboriosos habitantes! Porque sendo como era feitura de Luciano de Mello nada podia fazer.

A lavagem de roupa se fazia além da represa da Companhia Santa Tereza, seguindo as águas sujas para o abastecimento de Olinda. No rio Beberibe são lançadas sem o menor escrúpulo materiais fecais, animais mortos e toda sorte de imundices, tornando-se quase que imprestáveis as águas límpidas e puras daquele rio.

Os taberneiros têm duas medidas e dois pesos, uns servem para comprar farinha, milho, feijão e aguardente aos almocreves e outros para vender aos incautos que lá se fornecem, iludindo criminosamente no seu comércio a uns e outros.

Tendo sido constantemente reclamada ao poder competente a necessidade de um cemitério em Beberibe, foi pela Assembleia Provincial autorizado tal melhoramento nas disposições gerais da lei do orçamento municipal Nº 1862, artigo 18 e seus parágrafos; a construção desse cemitério a Câmara contratou Luciano de Mello, exorbitando, porém, das faculdades da lei para conferir-lhe vantagens que não se podia conceder, tornando desta sorte nulo o contrato em sua essência.

Luciano Eugênio de Mello lançando mão de terrenos da irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe, aí edificou o cemitério em péssimas condições higiênicas, com o auxílio dos moradores do lugar, uns facilitando meios pecuniários, outros voluntariamente o seu trabalho e finalmente outros, compelidos criminosamente pela polícia a trabalhar.

Concluídas as obras, querendo Mello arredar de si a convivência no no escândalo praticado pela Câmara, fez doação à irmandade referida do cemitério, doando aquilo que não lhe pertencia somente. Os cadáveres dos indigentes que eram remetidos pela polícia para ali afim de serem inumados, foram muitos deles devolvidos, porque Mello não consentia enterrar  quem não tivesse com que pagar.

Até com os mortos autorizava a Câmara a especulação! Cidadãos intendentes, examinai este contrato que se deve encontrar nos arquivos da Câmara e uma vez com ele na mão vos haver de convencer da verdade das minhas asserções.

Procurai um outro agente municipal que seja capaz de cumprir as nossas determinações, e substituí o atual fiscal desse lugar que não vos poderá auxiliar, porque sendo sobrinho de Luciano Eugênio de Mello e vivendo com ele na maior intimidade e dependência, procura por todos os meios iludir a vossa boa fé. Finalizou Veritas.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Jornal do Recife.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O Viajante inglês "O Retorno"

 

Há mais de 200 anos, o viajante inglês Henry Koster, retornava da Ilha de Itamaracá durante o inverno de 1815, enfrentando os morros e as matas de Paratibe, Mirueira, Beberibe e Água Fria, em seu retorno para o Recife. Gravura: Ilustrativa.

O texto a seguir, retrata a trajetória do viajante inglês Henry Koster, no inverno de 1815, quando deixava a Ilha de Itamaracá rumo a Água Fria. Koster faz uma narrativa das dificuldades enfrentadas por ele e seu guia, Manuel, montados em seus cavalos num percurso cheio de obstáculos provocados pelas chuvas e os detalhes minuciosos da região dos povoados de Paratibe, Mirueira, Beberibe e Água Fria e locais que ainda nem existiam como povoados é o caso de: Santa Casa, Alto da Conquista, Águas Compridas e Alto do Pascoal, através da antiga Estrada da Boiada. Além de detalhes sobre a fauna, como personagens que enriquece esta história que aconteceu há mais de 200 anos. Acompanhe parte dessa linda aventura extraída do livro  “Travels in Brazil” de Henry Koster, traduzido por Luiz da Câmara Cascudo em 1942 com o título: “Viagens ao Nordeste do Brasil”.

Antes do começo das chuvas em 1815, deixei Itamaracá com Manuel, pelas 4 horas da tarde, bem retardado por ocorrências imprevistas. A temperatura era boa e a lua se devia erguer brevemente. Esperava uma noite agradável, mas quando estávamos a umas três léguas da ilha a chuva começou a cair abundantemente, chegando à plantação de inhame, meia légua adiante, estávamos completamente molhados. Imediatamente depois desse lugar o caminho tem ao lado uma alta colina, e a água se precipitava em grande quantidade, cobrindo até os joelhos dos cavalos, e não obstante, alcançamos a estrada das boiadas e paramos em uma venda á margem do percurso. Comprei uma grande dose de aguardente e a despejei sobre minha cabeça e ombros e nas minhas botas, fazendo Manuel o mesmo, e bebemos uma boa parte. Esse processo é geral. Tendo-o em seguido há algum tempo e mesmo ficando exposto às chuvas no correr do ano, nada sofri, nem mesmo padecendo outro ataque de febre, mas é possível atribuir-se o fato as precauções mais a excelência do clima.

Quando atingimos a povoação de Paratibe a noite estava fechada. Encontrei Antônio, o homem a quem haviam armado uma emboscada quando eu residia em Jaguaribe, e pediu-me que ficasse em sua choupana, mas preferi seguir, embora estivesse ensopado pela chuva. Subindo a colina além de Paratibe, tinha eu a esperança de uma linda noite porque a lua clareava, mas só apareceu alguns instantes. No Vale da Mirueira a chuva nos apanhou novamente e com relâmpagos, e fomos pela floresta, através do vale, numa treva tão imensa que impedia avistar o cavalo de Manuel, enxergando apenas pelo clarão dos relâmpagos, embora o animal fosse de uma cor cinzenta, aproximando-se do branco, e eu estivesse tão vizinho que o encontrava, tocando-o. Quando chegamos perto da colina que desce para os arredores de do Recife, recomendei tomar à esquerda porque há um precipício perigoso na direita da estrada. Não me ouviu ou seu cavalo era teimoso, e seguiu muito pela direita, escorregando e caindo num ponto a poucas jardas do lugar que devia evitar. Desmontei para auxiliar Manuel, vendo o que passava apenas pela luz dos relâmpagos. Perguntei por ele mesmo, seu cavalo e sua pistola e recebi como resposta que tudo ia bem. Disse-lhe: “Onde está o caminho?” porque volteara tanto, em pontos diversos e tantas vezes, para socorrê-lo, que não tinha noção do rumo que deveria tomar para reencontrar a estrada, e, indeciso, por um momento formei a ideia de ficar no local até que o dia rompesse. Mas, falando a Manuel se ele tinha uma certa lembrança sobre o caminho seguro, respondeu-me com voz áspera, porque estava molhado e contundido: “Vejo o caminho, não tenha receio âmo!” Seguiu, e eu acompanhei-o levando cada qual o seu cavalo. Descemos por uma orla porque a estrada estava muito escorregadia, devido à chuva e não era possível avançar doutra maneira. Meu cavalo bateu-me com a cabeça várias vezes e pouco faltou para que tombasse. A estrada teria seis pés e num lado havia o fundo precipício formado pelas torrentes na época chuvosa, determinando ao solo desmoronamentos e, na margem oposta, a declividade é menor, mas é coberta de bosques de arvores onde é possível perder-se sem luz.

Chegamos ao pé da colina sem acidentes e quando atingimos a povoação de Beberibe a chuva cessara, a noite estava clara, não obstante a lua continuar oculta. Cruzamos vagarosamente a colina além de Beberibe e alcançamos Água Fria, residência de um dos meus amigos, a duas léguas do Recife, entre uma e duas horas da madrugada. Se o tempo estivesse bom, teríamos chegado às 8 ou 9 horas da noite anterior. O instinto (se o posso assim chamar) que os indígenas possuem, assim com grande número de negros e de mulatos, de encontrar o caminho certo, sempre me surpreendeu, mas não tanto como nessa ocasião. Eu nada podia enxergar, mas Manuel estava certamente convicto de conhecer a estrada, ao contrário não falaria de modo tão arrogante. Ele possuía uma grande reserva de coragem mais era sempre frio e prudente.

Passei em Água Fria uma das horas mais agradáveis da minha residência no Brasil. O dono é um cavalheiro inglês ao qual devo muitas obrigações. Erámos amigos íntimos e me sentia à vontade em Água Fria como em Itamaracá. O lugar estava em situação desoladora quando ele tomou posse, e mesmo que o solo não fosse muito propício, o sítio prosperava. Construíra uma boa casa, edificando galpões, fazendo cercas e plantando árvores úteis e ornamentais. O lugar era infestado pelas formigas vermelhas, mas, com muito trabalho, as destruíra, escavando o solo para matar os formigueiros. Detrás da residência havia um lago, de considerável extensão, formado por um riacho cujo curso parara pelo entulho de areia solta e branca na parte onde passa a estrada, sendo esta, de uma banda, mais elevada que o lago assim como os terrenos onde o riacho antigamente corria. Quando as águas descem pelo inverno o lago transborda e alaga a estrada, mas durante a maior parte do ano o caminho é seco ou quase seco. Se esse lago fosse drenado, a propriedade de Água Fria valeria dez vezes mais o que vale atualmente, porque seus limites são dados pelo mesmo canal do riacho. O lago é coberto de juncos, caniços e ervas, cujas raízes entrelaçadas formam uma espécie de tecido a flor d’água, não suportando o peso de um homem, mas exigindo muito esforço para abrir-se uma brecha através dele. Nesse lago há numerosos jacarés ou aligátores (tipo de jacarés encontrados na América do Norte e na China), tornando perigosa a operação de cortar os juncos, necessária para abrir um espaço para bebida e banho dos cavalos, assim como para guardar a erva seca que será alimento para os animais no verão. Vou mencionar, entre outras, a família dos lagartos. O camaleão pode ser citado assim como o teju Assú, que penso ser a” lacerta teguixin”, esse último é muito comum. Há também o calangro, menor que os outros dois, e essas espécies são comidas pela gente do povo. A vibra e a lagartixa são duas espécies pequeninas de lagartos, podendo ser vistas em todos os lugares, nas casas, nos jardins e nos matos. Fazem mais benefícios que males, devorando moscas, aranhas, etc, e são, para os meus olhos, lindas criaturas. Sua atividade, e ao mesmo tempo, sua timidez, agradavam-me.

Viajando para o Recife, através das matas da Mirueira, ouvi várias vezes o rouco coaxar do “sapo cururu” e também o “sapo boi” ambos de voz bem desagradáveis e particularmente sonoras, durante as noites invernosas que descrevi. Os gritos constantes dos grilos, logo que o sol se põe, raramente deixa de aborrecer os recém-vindos a esse país. Recordo-me da primeira noite que passei na região, quando da minha chegada a Pernambuco. Conversando, detinha-me várias vezes, esperando que o rumor cessasse, depois prosseguia (como sucedeu a várias pessoas) e finalmente já não ouvia o barulho nem que se fizesse em minha presença. Quando um desses grilos se instala numa habitação não há sossego antes que o desalojem, devido à insistência do seu apito...

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE.

Fonte: Livro: Travels in Brazil, Henry Koster.

terça-feira, 30 de maio de 2023

O Viajante inglês

 

O viajante inglês Henry Koster em 1810, saiu da Tamarineira e passou pelos povoados de Beberibe, Mirueira, Paratibe, Igarassu e Goiana. Gravura: Thomas Ender (Ilustração).

O texto a seguir, mostra uma viagem fascinante realizada em lombos de animais de um aventureiro inglês chamado Henry Koster e sua caravana, partindo do lugar Cruz das Almas (na Tamarineira) em direção à Goiana, cortando morros, cruzando rios e riachos, enfrentando o calor escaldante e estradas intermináveis de locais pitorescos, vilas e povoados da zona norte da grande Recife. Passaram pela estrada velha de Beberibe (atualmente estrada velha de Água Fria), Caminho das Boiadas (estrada que cortava os atuais Alto do Pascoal, Alto Deodato, Alto dos Coqueiros e saía na atual Praça da Convenção em Beberibe), passou pelo povoado de Beberibe e atravessaram o rio Beberibe e logo depois o riacho Lava-tripas (Águas Compridas) e subiram o atual Alto da Conquista e desceram na Mirueira, e daí, seguiram por Paratibe até atingir Goiana. Veja a na íntegra o relato do viajante inglês registrado na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco que foi extraído do livro “Viagem pelo Nordeste do Brasil”:

Nutria eu grandes desejos de fazer uma extensa viagem nos lugares menos povoados e menos cultivados daquela região. O engenheiro e chefe formara o projeto de visitar todas as fortalezas do seu vasto distrito e teve a bondade de permitir que eu o acompanhasse; infelizmente, porém e em virtude de dependências de seu cargo teve de adiar a sua partida até a próxima estação.

Ignorando, eu se seria obrigado a voltar logo para a Inglaterra, não podia demorar-me tanto; em vista do que, pedindo informações aos amigos e conhecidos, soube que o irmão de um morador de Goiana estava preste a partir para aquela cidade e que provavelmente iria mais longe pelo interior do país a negócios comerciais que tinha em vistas. Eu tencionava ir até o Ceará, e pedindo facilmente obtive do governador um passaporte.

Na tarde de 19 de outubro de 1810, alguns amigos acompanharam-me à minha casa, na Cruz das Almas a fim de assistirem a minha saída, que devia realizar-se na noite seguinte. O Sr. Félix, meu companheiro chegou depois trazendo o seu guia, que era um preto livre. Achando-se concluídos os preparativos de nossa viagem, posemo-nos a caminho por volta de uma hora da madrugada, ao sair da lua, o Sr. Félix, eu e meu criado inglês, todos a cavalo, armados de espadas e pistolas; o guia preto, também a cavalo, mas sem cela e sem freio, levando um pequeno bacamarte, tangia na sua frente um cavalo carregado de bagagens com um mulatinho montado entre os viajantes.

Os meus amigos ingleses, despediram-se desejando-nos boa viagem quando saímos da Cruz das Almas (lugarejo da Tamarineira), e ficaram em minha casinha, que eu pusera à disposição de um deles, durante a minha ausência. Passara eu pouco antes pelo caminho que seguíamos ao clarão da lua e que antes percorrera tantas vezes que bem poderia servir de guia.

Durante ¾ de léguas marcharmos por um caminho arenoso e depois entramos a subir uma ladeira íngreme (Caminho das Boiadas), cujos lados e o planalto eram cobertos de arvoredos.

A povoação de Beberibe está situada no pé do oiteiro oposto; um riozinho (rio Beberibe) d’água por extremo límpida a atravessa; no verão várias famílias vão aí habitar. Meia légua além de Beberibe atravessamos outro pequeno rio (rio Lava-Tripas) e logo depois começamos a galgar a ladeira do Quebracú; a estrada (Alto do Conquista) em diferentes lugares é bastante inclinada e estreitíssima, tendo de um lado um precipício e do outro um terreno muito alto (Monte Berenguer, atualmente conhecido por Alto da Bondade) coberto de matos. O cume escarpado da colina é inteiramente plano e a vereda continua por meia légua entre elevados arvoredos e um solapado impenetrável. Descemos ao comprido e estreito Vale da Merueira (atual Mirueira) que é fertilizado por um regato que não seca nunca; os planaltos laterais são cobertos de espessas capoeiras; na planície avistam-se cabanas aqui e ali, hortas de bananeiras, roçados de mandioca e um imenso cercado onde pastam os animais. O declive do lado oposto a esse lindo vale, é bastante rápido; o caminho ao lado da esplanada, assemelha-se ao que havíamos atravessado.

Tornamos logo a descer e ao chegar embaixo entramos na solitária povoação de Paratibe, onde as plantações de mandioca, tanchagem e fumo, são por entre habitações. Os moradores na maior parte, consistem em trabalhadores livres, brancos, pardos e negros. As casas são construídas aos lados da estrada, à certa distância uma das outras, por espaço de uma milha. Um riacho que corre no centro da estação pluviosa transborda inundando as margens em considerável distância.

Cavalo transportando algodão, cena vista por Henry Koster ao deixar o povoado de Paratibe. Gravura: Henry Koster.

Depois dessa povoação a estrada é bastantemente plana, mas, todavia, diversificada por pequenas e desiguais elevações. Descobrem-se desse ponto diversos engenhos de fazer açúcar e numerosas cabanazinhas. O trânsito de matutos tangendo cavalos carregados de algodão, peles e outros produtos do país, que levam ao Recife, donde voltam com outras espécies de mercadorias, tais como peixes, carne seca, etc. É, por assim dizer, incessante.

A Vila de Igarassu onde entramos em seguida, foi já mencionada num dos precedentes capítulos. É uma das mais antigas fundações daquela parte da costa; distante do mar duas léguas e está nas proximidades de uma pequena baía. Os matos que marginam as veredas e as estradas, são tão espessos e solapados, que se tornam impraticáveis mesmo para um homem a pé, a menos que não leve consigo uma foice ou um machadinho com que possa abrir o caminho vencendo os obstáculos que se lhe oponham a passagem.

De tais obstáculos o mais formidável é o cipó, planta formada de compridos e flexíveis ramos que se enrolam nas arvores; as vergonteias que não se tenham agarrado ainda a algum pau, são impelidas pelo vento aqui e além; pregam-se às arvores que lhes ficam próximas; e como essa operação continua por muitos anos sem interrupção, forma-se uma espécie de filamento aparentemente irregular através do qual a passagem é bem difícil. Há muitas variedades dessa planta, a que tem o nome de cipó cururu é a mais apreciada pelo comprimento das hastes, pela fortidão e grande flexibilidade; empregam-se muitas qualidades de cipós na construção das paliçadas.

Parte da Vila de Igarassu é alta, a outra parte é baixa e regada por um rio sobre o qual há uma ponte indispensável, visto como subindo a maré até ali tornaria bastante difícil a comunicação entre as duas partes da vila.

É fácil de imaginar que ela disfrutou maior fortuna do que a de que hoje se pode lisonjear. Inúmeras casas são de dois andares; mas acham-se presentemente estragadíssimas e algumas caem em ruínas. As ruas são calçadas, mas em péssimo estado e a erva cresce em diversos lugares. Possui diferentes igrejas, um convento, um recolhimento ou retiro para mulheres, uma casa da Câmara e prisão. O lugar é delicioso semeado de engenhos, casas e fertilizado por muitos rios; passamos em seguida as aldeias do Bu e de Fontainhas; depois desta última a estrada segue um plano arenoso, quase descampado até descobrir-se o Engenho Bugiri, rodeado de campos e de verduras; além dessa fazenda corre o rio Goiana, que é preciso atravessar a vau, a maré sobe até ali. A ponte de madeira que havia outrora está em ruínas e é perigosa passagem para cavalos, pelo que entregamos os nossos ao guia, que, sem apear-se do seu fê-los atravessar o rio enquanto que nós, passamos sobre traves soltas. Esta operação não nos consumiu muito tempo e entramos logo na cidade entre 4 e 5 horas da tarde. Goiana dista do Recife, 15 léguas.

Em Igarassu, tive depois diferentes ocasiões de demorar-me nessa hospedaria. Uma vez sucedeu-me pedir sal, que nunca botam na mesa. O dono da casa com a familiaridade habitual do país, pareceu surpreendido do meu pedido, entretanto trouxeram-me e não se falou mais em semelhante coisa, isso passou-se pela manhã, pouco depois da nossa chegada. Ao jantar, com grande desapontamento nosso, a sopa e as demais iguarias, tinham tão forte dose desse desgraçado ingrediente que mal se podia comer. Queixamo-nos ao dono da casa, que respondeu: “Mas que eu pensava que os senhores gostavam de sal”.

A cidade de Goiana, uma das maiores e mais florescente da capitania de Pernambuco. Está situada nas margens do rio do mesmo nome, o qual quase que rodeia pelo circuito que faz nesse lugar. As casas com uma ou duas exceções tem apenas o pavimento térreo. As ruas não são calçadas, mas são largas; a principal o é de tal forma que se pôde edificar uma igreja numa das extremidades e deixar ainda cômoda passagem de cada lado. A cidade possui um convento de carmelitas e vários outros edifícios destinados ao culto.

Os habitantes sobem a 4 a 5 mil e a população aumenta todos os dias. Há muitas lojas e o comercio com o interior é considerável. Veem-se sempre nas ruas muitos matutos que vão vender seus produtos ou comprar mercadorias manufaturadas e objetos de consumo. Nas vizinhanças acham-se muitas plantações de cana. Creio que se pode classificar às terras dessa zona entre as melhores da Província.

Por: Jânio Odon/VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Revista do Instituto Arqueológico de Pernambuco.


sexta-feira, 26 de maio de 2023

O Cemitério de Beberibe e seus tormentos

 Os descasos das autoridades governamentais com o Cemitério de Beberibe causaram grande sofrimento ao povo da região de Beberibe. Foto: Ilustrativa/Pinterest.

O Cemitério de Beberibe foi inaugurado em abril de 1888, atualmente denominado Cemitério de Águas Compridas, localizado à noroeste de Olinda. É um cemitério de grande importância para os moradores da região de Águas Compridas e de Beberibe (Recife). Neste ano, completou 135 anos de existência. Poucas pessoas conhecem a sua história e muito menos os tormentos enfrentados pela população de Beberibe no início do século XX, fatos como: abandono de cadáver no portão do cemitério (1907) que passou três dias, sem que as autoridades governamentais tomassem qualquer providência. Um delegado inconsequente que autorizou o enterro de um cadáver com doença contagiosa, numa rede (1914), colocando em risco a saúde da população e de uma epidemia; além do fechamento do cemitério em 1933, por falta de espaço, que causou grande sofrimento a população da região que tinha que caminhar a pé, por mais de uma légua para enterrar seus entes queridos no cemitério de Santo Amaro e que só foi reaberto dez meses depois. Um fato cruel e desumano. São histórias reais, retratadas nos principais jornais da época e que o Blog Vozes da Zona Norte reconta para vocês.   

Jornal Pequeno, 5 de abril de 1907 – Há três dias, acha-se colocado à porta do Cemitério de Beberibe, no Caenga, o cadáver de um homem de cor preta. Já em estado de putrefação, fedentina que dele se desprende constitui sério perigo para os habitantes daquelas redondezas.

O cadáver não se enterra porque não tem o respectivo atestado. O escrivão não dá porque o morto é miserável e não há quem possa pagar o atestado. O subdelegado, sargento Vasconcelos, não é encontrado porquanto mora no Arruda, onde é estabelecido com venda.

Quanto ao prefeito, um tal sr. Veloso, mora em Beberibe e não dá sinais de vida, de forma que, pelo visto, o cadáver será devorado pelos urubus. Esta notícia nos foi dada por um habitante do lugar Caenga e que está ameaçado de uma seria infecção por morar perto do cemitério. (Finalizou).

Jornal Pequeno, 24 de novembro de 1914 – Uma reclamação (dizia o título) – Esteve hoje em nossa redação o tenente Altino Manta, residente no lugar Caenga, distrito policial de Beberibe, e contou-nos o fato abaixo, para o qual pede providências, então fazendo-se intérprete de muitos outros moradores do lugar.

Ontem, às 4 horas da tarde, com o consentimento do subdelegado do Arruda, capitão Bento Borges Leal, foi feita a condução, do Arruda até o cemitério de Beberibe, do cadáver em rede, de uma varíola de caráter hemorrágico.

À frente, gritando para que fechasse as portas das casas, ia um sr. João dos Santos, que dirigia o enterro. No momento, disse-nos o tenente Manta, a estrada em todo seu longo curso, estava cheia de criancinhas que brincavam e assim se expuseram ao terrível mal.

Em Beberibe, afirmou-nos ainda que o queixoso, quando lá chegou o enterro o subdelegado local, sr. Carlos Moraes, condenou o proceder de seu colega do Arruda, fazendo conduzir a pestosa, aquela hora do dia, sem os requisitos precisos.

Realmente, acrescentamos nós agora, é inacreditável que tendo o Estado carros especiais para a condução de pestosos, de tanto sabendo e podendo solicitar qualquer autoridade policial, o subdelegado Borges Leal não o tivesse feito e agisse a expor dezenas de vidas à tão cruel doença. Precisa um corretivo o caso. (Finalizou).

Jornal Pequeno, 7 de julho de 1933 - A Diretória da Fazenda Municipal do Recife torna público que não havendo mais espaço para enterramentos no Cemitério de Beberibe (atual Cemitério de Águas Compridas), a Prefeitura resolveu fechá-lo até ulterior deliberação.

Jornal do Recife, 26 de setembro de 1933 - Há cerca de oito meses foi fechado o cemitério de Beberibe, por não ter mais espaço. A grande população daquele subúrbio vem sofrendo bastante com essa situação. Não se pode avaliar o suplício que representa para o pobre, fazer o enterramento de um ente querido, puxando a pé de Beberibe até o cemitério de Santo Amaro. São três horas de caminhada sob sol inclemente.

Ao que soubemos, o capitalista Thomaz Comber já doou o terreno necessário ao novo cemitério. Seria para desejar que a Prefeitura providenciasse com urgência para preparar convenientemente o novo corpo santo daquele subúrbio.

Jornal do Recife, 18 de novembro de 1933 -  São muitas as queixas que temos ouvido. Elas andam na boca do povo.

- Isto é o castigo do corpo! Puxa! Aí que ninguém aguenta! Antes caçar Lampião. E é assim ordinariamente.

Domingo passado, dez do corrente, sol a pino, saía de Passarinho, lá para dentro de Beberibe o enterro de um popular, cujo óbito ocorrera na véspera às onze horas. Seis homens do povo, camaradas daquele que já agora se imortalizará para sempre, conduziam seu cadáver encerrado no caixão de pinho. Dali  ao cemitério de Santo Amaro, aqui, como se sabe de sobra, na cidade do Recife.

De trecho a trecho do caminho um não pequeno número de quilômetros, uma parada. Uma parada a reclamações, reclamações a esmo, porque afinal não havia ali quem estivesse em condições de as ouvir tomando-as na devida consideração, que era e é o que importa para que cesse o motivo determinante dessa caminhada.

Após a parada, em marcha novamente. Marcha forçada com o intuito de se vencer a longa distância. Verdadeiro suplício dos vivos na condução de cadáveres!

Está fechado, é público e notório devido a uma nota da Prefeitura do Recife, o cemitério de Beberibe, passando o enterro da gente que morre naquele populosíssimo distrito e no do Arruda, também populoso e suas adjacências, a ser feito no de Santo Amaro. Imagine-se! A razão disso? - Ora, por não mais comportar o terreno nenhum cadáver, isto é – não haver mais espaço devoluto; ora, diz porque...em Beberibe, tão especial seria o seu clima, tão bom seu estado sanitário, que raríssimos seriam os óbitos. A terra ideal, onde já não se morre...

O cemitério de Beberibe conta quase cinquenta anos de utilidade pública, tendo sido até há pouco tempo pertencente a municipalidade de Olinda, que o construíra. Há uns oito anos foi reformado. Está lá à entrada na parede frontal da saleta da administração a lousa com a inscrição assinaladora, que é esta:

“Aumentado e reformado na administração do coronel José Cândido de Miranda (1925- 1928). Sendo administrador deste cemitério Sabino José da Silva”.

Fomos visitá-lo domingo último buscando subsídios para essa reportagem, que era necessária por se tratar de assunto de interesse público o que se nos impunha, uma vez que já nos chegavam aos ouvidos as reclamações populares à cerca do suplício a que estão sujeitos os habitantes dos distritos mencionado, já toda vez que se tem de dar sepultura ao corpo de quem tenha morrido ali.

O cemitério é construído na Estrada do Caenga, “um bom pedaço” partindo da praça da Conceição, ponto terminal da linha. A estrada não é larga, nem também estreita. Regular e habitada. O portão dessa casa dos mortos fica defronte da casinha nº 556.

É uma casinhola mesma. De taipa e coberta de folhas de zinco. Arreando-se dum lado. A frente dando-lhe sombra. Uma mangueira e um florido de “papoula vermelha”.

O tipo perfeito da espécie de habitação da nossa gente humilde, casa, cuja existência é um arrastão penoso de indemências sem fim. Lançamos um olhar ao seu interior.

Moveis? - Nem sombra! Dois caixões de querosene a um lado. A parede esquerda, um “alcoviteiro”. Ao fundo, visível portando do lado de fora, num quadro tosco o retrato do presidente mártir João Pessoa.

Dissemos mentalmente: - Quanto é sincera a homenagem do povo! Em seu coração as conveniências não penetram, de modo que seu culto é inalterável, incorruptível. Conseguimos encontrar o encarregado do cemitério, José “do Caenga”. Com ele nos entendemos sobre o fim que nos levava até ali.

Respondendo a nossa pergunta, o bom homem nos disse:

- Trabalhava aqui vizinho, nem ajudante tinha. Eram de cinco a oito enterramentos diários de adultos e crianças. Morre muita gente aqui (Beberibe), no Arruda e por esse mundo todo. ( E a ilusão da terra, onde já não se morre¿...) Por isso o “doutô perfeito” (referindo-se ao prefeito do Recife, Antônio de Góis Cavalcanti) mandou fechar indo os enterros para Santo Amaro. Mas vai aumentar. “Seu” Thomaz Comber cedeu uma faixa de terra. “Pega” a minha casinha. É aqui, hoje, dum lado! Um engenheiro da “Perfeitura” veio saber por quanto vendo a minha casinha, levantando, eu, uma nova noutro lugar. O “perfeito” tem pressa em abrir de novo o cemitério. Disse ser em janeiro. Finalizou José do Caenga.

Segundo as explicações acima, explicado fica porque foi fechado o cemitério aludido. É bem assim, que a municipalidade do Recife vai abri-lo logo que tenha procedido ao seu necessário argumento, que de fato – seu espaço é exíguo. Aliás, se o alargamento não exceder do ponto que vai de seu muro lateral até a casinha do José do Caenga. Ponto esse, encravado em terras de propriedade de mister Comber, cuja opulenta vivenda, numa colina, fica em sentido fronteiro ao cemitério e em posição magnifica, encravado e doado (já o referido não será grande coisa).

Em futuro não longínquo, nova ampliação será imprescindível, tendo-se em vista que Beberibe e Arruda, cada dia que passa, mais populosa ficam e que no primeiro desses distritos, muito grande que é, tendo outrora contado com sítios extensos, hoje, porém, subdivididos em lotes de terras vendidos a prestações e onde estão sendo feitas edificações, a densidade da população há de ser um fato inconteste.

Não padece dúvida; não pode perdurar muito o fechamento daquele cemitério, pois é uma estupidez de caminhar e se trazer um corpo daquele Beberibe ao cemitério de Santo Amaro.

Em bonde, do Recife até lá, regula quarenta a quarenta e cinco minutos. Ora o enterro de gente do povo é invariavelmente feito a mão. Que suplício não é, pois, vir dali, senão de “Passarinho”, até o nosso cemitério?!

Por isso será de todo interessante que a Prefeitura o reabra o mais depressa possível. (Finalizou)

Jornal Pequeno, 5 de janeiro de 1934 – Cemitério de Beberibe (dizia o título) – Os moradores de Beberibe apelam, mais uma vez, para o prefeito da capital, no sentido de ser reaberto o cemitério local.

Não se compreende que a população do velho subúrbio, na sua maioria paupérrima fique eternamente compelida ao doloroso sacrifício de trazer um morto querido para sepultamento em Santo Amaro. Não só as despesas duplicam como ressalta a desumanidade do percurso, a pé, de mais de uma légua.

Não se compreende a demora da reabertura do Cemitério de Beberibe, quando o capitalista Thomaz Comber já fez doação do terreno necessário para aquele fim.

Gratos pela publicação. Moradores de Beberibe.

O Cemitério de Beberibe só voltou a funcionar em 6 de abril de 1934.

Por: Jânio Odon/ VOZES DA ZONA NORTE

Fonte: Jornal Pequeno e Jornal do Recife.