sábado, 8 de fevereiro de 2025

Limoeiro (PE), A Princesa do Capibaribe em 1880

 

Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, Limoeiro - PE. Criada em 16/6/1779.

O amor pela história nos faz garimpar grandes preciosidades escondidas e esquecidas nas grandes prateleiras dos arquivos públicos e bibliotecas. E neste prazer pela história, acabei encontrando mais uma, de tantas relíquias encontradas nos anais da história. Descobri uma publicação da então Vila de Limoeiro, a Princesa do Capibaribe, datada de 1880, época do Brasil-Império, da escravidão africana. Época em que o trem estava prestes a chegar a esta vila. Onde a Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação* estava sendo reconstruída e a produção de algodão, cana de açúcar e a criação de gado estava trazendo grande desenvolvimento para esta cidade. Ainda não havia a figura do prefeito, o governador era o Presidente da Província, à época, Franklin Américo de Menezes Dória (Barão de Loreto).

 O texto foi extraído do Relatório da Província de Pernambuco do ano de 1880. O texto diz o seguinte:

Vila de Limoeiro, 26 de outubro de 1880

Dissemos que Limoeiro era Comarca antiga e notável, e que em artigo especial o demonstraríamos, o que agora fazemos com a descrição dos acontecimentos mais importantes e que se prendem à sua história.

A Vila de Limoeiro está situada à margem setentrional do Rio Capibaribe, e ao pé da Serra da Raposa, ou da Barrica, como lhe chamou Vauthier*, por ter ela se arvorado uma barrica para observações; em uma extensa planície com proporções para acomodar grande população; dista 78 quilômetros do Recife; seu clima é frio  e seco, tornando-se por isto muito saudável; são seus limites: ao norte, com as comarcas de Bom Jardim, Nazaré e Paudalho; ao sul, com Santo Antâo e Bezerros; a oeste, com o Brejo da Madre de Deus e Bom Jardim.

Sua população sempre foi estimada pelos antigos arrolamentos policiais em 29 mil almas, como verificamos o arquivo da Câmara Municipal, e no Dicionário Topográfico Histórico da Província, que consultamos, o que está  em relação com a população escrava em número de dois mil matriculados na coletoria desta vila; não obstante figura ela ao último recenseamento com 15.604 habitantes, devido isto ao receio que tiveram os recenseadores, pelo boato que então se espalhou de que era listas para novo cativeiro.

 Senhorinhas nos canaviais do Agreste pernambucano. Foto: Revista O Cruzeiro.

Como ponto central, o seu comércio é bem animado, havendo importantes casas com um ativo superior a 40 contos, exportando muitas mercadorias para o alto sertão e para os povoados vizinhos.

O seu solo é brejado pelo lado norte e este, onde a cultura da cana de açúcar é animadíssima; sendo o sul e oeste mais apropriados ao plantio do algodão e a criação do gado. Sua edificação em geral é moderna, tendo o perímetro da vila, (06) seis sobrados, uma casa com sótão e (305) trezentos e cinco casas térreas, figurando ali o magnifico edifício público, em que funciona a câmara municipal, tribunal do júri, cadeia e quartel, que vai presentemente de 80 a 100 contos de réis; edifício este como não há outro fora da capital.

Uma igreja em reconstrução, que serve de matriz, (02) dois cemitérios, sendo um muito notável pela solidão, tamanho e obras, tendo importante capela. Há mais (02) dois açudes públicos e uma pequena ponte sobre o riacho Pirauíra.

Tem um fórum cível, com um juiz de direito, um promotor, um juiz municipal, um delegado, dois subdelegados, duas coletorias, um destacamento policial, três escrivães, dois juizados de paz, câmara municipal com importante patrimônio constante de meia légua do terreno, em quadro, e um bom edifício que serve de açougue público. Tem um comando superior de guardas nacionais, que pela nova organização, lhe ficaram subordinadas as comarcas de Taquaretinga e Bom Jardim, que não puderam formar um segundo comando superior.

Em 1880, Franklin Dória, o Barão de Loreto, era o governador de Pernambuco. Foto: J. Insley Pacheco.

Tem dois advogados formados em direito, e um provisionado pela Relação. Tem duas farmácias bem sortidas, sendo que uma delas tem concorrido com muitos preparados para todas as exposições, recebendo diversos prêmios. Tem três fábricas a vapor para o descaroçamento de algodão, além de muitas movidas por animais, e crescido número das de mão.

Tem (103) cento e três estabelecimentos comerciais e industriais sujeitos aos impostos gerais e provinciais. Tem (08) oito escolas públicas, sendo as duas da vila, frequentadas diariamente por (75) setenta e cinco alunos, e cerca de (100) cem de matrícula, sendo ambos os sexos. Tem mais um clube de leitura, com pequena biblioteca que recebe, por todos os correios, (25) vinte e cinco jornais das diversas províncias do império.

Tem (15) quinze engenhos de fabricar açúcar, fazendas de criação, (3) oficinas de fabricar azeite de mamona, (02) duas olarias e (02) dois fornos de cal.

Suas principais povoações são: São José de Pedra Tapada, Malhadinha, Bengalas, Cedro e Bizarra. Tem uma estrada de rodagem com uns (10) dez quilômetros em direção à capital, feita pelos retirantes, mas que está abandonada por falta de bombas; tem uma outra natural, em terreno plano, que dá comunicação para todos os sertões, sendo esta a principal artéria da província, por onde se dá saída à produção da zona algodoeira do Pajeú de Flores e Piancó, que vai beirando  o vale do Capibaribe, muito abundante de pasto e água; por esta estrada também desce muito gado do sertões de Pernambuco e Paraíba, e por onde, de época imemorial, transitam os magistrados, empregados públicos e destacamentos de todas as comarcas do centro.

Há na comarca (05) cinco mercados e feiras, para onde flui quantidade prodigiosa de cereais, que abastece a população, exportando o excedente para os sertões, pois para eles concorrem muitos sertanejos, não só pela barateza dos gêneros, como pela facilidade da comunicação e homogeneidade do clima.  (Finalizou).

*Louis Léger Vauthier – Engenheiro francês, contratado pelo governo da Província de Pernambuco para construir edifícios, estradas e casarões. Projetou o Teatro Santa Izabel (1840), o Solar Barão Rodrigues Mendes (atual Academia Pernambucana de Letras), Ponte Pênsil da Caxangá, sobre o Rio Capibaribe, Casa da Câmara e Cadeia do Brejo da Madre de Deus (1847). Arquitetou o Mercado de São José, mesmo estando morando na França.

*Paróquia Nossa Senhora da Apresentação - foi criada em 16 de junho de 1779, sendo desmembrada da Paróquia de Santo Antônio de Tracunhaém, pertencente a Arquidiocese de Olinda e Recife. Teve como primeiro pároco, o padre Bartolomeu Monteiro da Rocha.

Por: Jânio Odon/Vozes da Zona Norte.

Fonte: Relatório da Província de Pernambuco – 1880, Arquivo Público de Pernambuco.


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