A visita do Presidente da República, Marechal Humberto Castelo Branco ao Recife em 1965. Foto: Sandoval Loureiro/DP.
Seis meses após o golpe militar
de 1964, uma sessão na Assembleia Legislativa de Pernambuco chamou nossa
atenção pela forma como foi feito os pronunciamentos e a visão dos
parlamentares na época e os pontos de vista da situação e da oposição, onde
mencionam a situação difícil da
população, com destaque, os aspectos econômicos e sociais da população da
região do populoso bairro de Casa Amarela, na região norte do Recife. O crítico
do regime militar, o deputado estadual, Mário Monteiro, onde na ocasião tinha
um forte reduto eleitoral em Casa Amarela, detona o regime e se demonstra
decepcionado com a postura do governo diante de uma inflação altíssima e a
situação crítica da população pobre do Recife. O deputado Nivaldo Machado, por
sua vez, sai em defesa do regime militar alegando o pouco tempo de Governo. Se
traçamos um paralelo dessa época aos dias atuais, notaremos que as grandes
dificuldades econômicas e sociais se assemelham e muito a nossa atual realidade. Participaram ainda desse debate os deputados estaduais: Andrade
Lima, Antônio Corrêa e Airon Rios. O embate aconteceu na sessão da Assembleia
Legislativa de Pernambuco no dia 13 de outubro de 1964, o discurso histórico,
atribuído ao deputado estadual, Mario Monteiro, segue na íntegra com seus
apartes:
Deputado Mário Monteiro - Senhor
Presidente, senhores deputados, novos rumos para a política brasileira era o
que se esperava depois da Revolução de 31 de março e esperava-se também que os
poderes constituídos minorassem o padecimento social e econômico desse povo
sofredor desta vasta região que é o Nordeste, mas, senhor Presidente e senhores
deputados talvez as classes produtoras alheias ao que foi a revolução de terra
e mar o queixam passar despercebido o fim para que foi feita aquela revolução.
Era para que houvesse moralidade
administrativas nas repartições públicas, mas o povo brasileiro esperava muito
mais, esperava que o seu padecimento econômico e social fosse enquadrado dentro
do esquema da revolução. E os dias se passam, espera-se que tenha condição de
sobrevivência a classe menos favorecida que é justamente a do trabalhador
brasileiro. E, o que se vê, senhor Presidente e senhores deputados, é a
inflação que aí está como um flagelo a este povo sofredor, e já se implantam
nas autarquias e nas repartições públicas e com galhardia se apresentam os
falsos líderes tão comum na época passada.
Lembro-me perfeitamente, que a
infestação desses falsos líderes no regime passado muito concorreu para que a
revolução se implantasse e nos desse a ideia de que uma nova aurora surgiria na República Brasileira, mas depois desses
expurgos, talvez desesperançado, espera o povo, não sei como, um milagre, que
talvez se dê dentro desse próprio regime, esperando que homens esclarecidos
façam com que as Casas do Congresso, enxerguem o que se passa neste vasto país. E, podem ficar certo, sr.
Presidente e senhores deputados, que aquele estado de coisa muito concorreu a uma
situação vexatória. As chamadas classes produtoras tinham suas cotas de
responsabilidade ante o fracasso dessa revolução que foi realizada há 31 de
março.
Deputado Nivaldo Machado –
Deputado Mário Monteiro, sou daqueles que não anda de turíbulo a mão , a incensar os poderosos
do dia, mas antes estas atitudes de criticar por criticar, muitas vezes visando
uma conduta sempre emocional do povo há uma diferença ou há uma distância muito
grande, e se até o momento não podemos ainda aquilatar os resultados positivos
da revolução democrática de 31 de março,
não temos ainda motivos bastantes para criticá-la e muito menos para
considerá-la um fracasso. Os propósitos que inspiram aquele movimento foram os
mais honestos e a frente do Governo está um grupo de homens sob a liderança do
Marechal Castelo Branco, que dispõe de
capacidade e de conhecimento dos problemas nacionais.
Uma observação mesmo superficial, das medidas que o Governo vêm tomando até o momento salvo algumas exceções, impõe a confiança nos destinos desta nação. O que não é possível é esperar em seis meses apenas o governo possa ter contribuído para minorar os males do povo vitima durante tantos anos, da demagogia, da falsidade, da mentira, da desonestidade, do embuste e da falta de espirito público de muitos daqueles que passaram pelos destinos que tiveram responsabilidade de dirigir o destino deste país. De modo que não sendo, como disse propenso a incensar os poderosos do dia ou não posso por uma questão de consciência e por amor a verdade , não posso deputado Mário Monteiro, apressar-me e em sã consciência afirmar em alto e bom som que a revolução é um fracasso. Porque, não é demasiado que repita, o tempo ainda é muito pequeno para que as medidas tomadas pelo governo possam produzir aqueles frutos que a nação espera levá-la aos seus grandes destinos sem correr para instalação de uma ordem política e social mais humana, mais justa e mais democrata e que possa assegurar não a meia dúzia, mas, a todos. Um índice, um padrão de vida decente, um padrão de vida correspondente a dignidade da pessoa humana.
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Mário Monteiro |
Deputado Mário Monteiro – Quero agradecer o aparte de V. Excia, mas senhor deputado não fiz sentir à V. Excia nem a nenhum deputado que a revolução de 31 de março fracassou. Aqui está uma advertência às chamadas classes produtoras que solicitam do governo medidas necessárias para a sua sobrevivência. Principalmente agora quando está prestes a efetuar o pagamento do 13º mês. A ela cabe, senhor Presidente, senhor deputado Nivaldo Machado. Tomar as medidas necessárias para que o trabalhador sinta-se seguro neste regime para que o desespero não seja o fantasma necessário para uma revolução contra aqueles que se dizem proprietários, e é precisamente por esta advertência. Senhor deputado, tão oportuna e necessário para que não fracasse a revolução de 31 de março. Que em boa hora fez expurgar os elementos subversivos e corruptos. Faço portanto um apelo às classes produtoras do Brasil para que hajam com prudência para minorar o sofrimento e o padecimento social e econômico deste povo.
Deputado Andrade Lima – Sinto-me na obrigação de aplaudir o discurso de V. Excia. e não podia ser diferente o comportamento de um deputado que nesta casa representa uma parcela do povo humilde, representa os homens dos morros de Casa Amarela, aquela população quase faminta, do Morro da Conceição, do Vasco da Gama, do Recife enfim. V. Excia. não poderia, neste instante, a conduta de um governo que permite que o preço da carne com osso se eleve até CR$ 1.000 mil cruzeiros o quilo. Que permite que o preço do arroz se eleve até CR$ 400 quatrocentos cruzeiros o quilo. E que também se eleve o preço do feijão, enquanto a maioria dos vencimentos inclusive o salário mínimo permaneçam como estavam no ano passado. V. Excia se quiser reeleger-se e quiser continuar a representa como tem representado, o povo do Recife, terá que reclamar hoje e sempre contra a situação de miséria e de fome que atravessa o povo brasileiro.
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Nivaldo Machado |
Deputado Nivaldo Machado – Não disse que V. Excia afirmava que a revolução fora um fracasso. Eu disse que nenhum de nós, em sã consciência, poderia fazer tal afirmativa. Mas ouvindo agora o aparte do nobre líder da que nenhum de nós pode deixar reclamar minoria, deputado Andrade Lima, que afirma medidas em favor do povo. Defendendo melhores condições de vida: Eu direi a V. Excia e ao deputado Andrade Lima, que reclamar nós continuaremos a reclamar, mas também, temos a obrigação de acusar, de acusar os verdadeiros responsáveis por esse estado de coisas, que são, exatamente, aqueles que foram banidos pelo movimento democrático de 31 de março, aqueles que se cevaram no poder. Que tiraram dele as maiores vantagens, em detrimentos dos superiores interesses da coletividade. Reclamar é obrigação do mandato que nós recebemos.
Nós continuaremos a reclamar, a
aclamar e a pedir, mas não fugiremos à responsabilidade de dizer, perante esta
nação iludida, quais os verdadeiros responsáveis pela sua situação, pela
situação de quase fome, pela situação de miséria. Essa responsabilidade não
pode deixar de estar nos ombros dos que governaram esse país durante tantos
anos e que jamais olharam para os verdadeiros interesses do povo, falando em
nome desses interesses, para os interesses pessoais.
Deputado Andrade Lima – (Dirigindo-se
ao orador) Desejo dizer a V. Excia que faz seis meses que se instalou esse
governo e o deputado Nivaldo Machado continua a responsabilizar o governo
passado por tudo que acontece de ruim ainda hoje. Se V. Excia viver mais seis
anos, haverá de aqui o deputado Nivaldo Machado responsabilizar o governo
passado por tudo de ruim quanto possa acontecer ainda!
Deputado Airon Rios – Apenas
aproveitando o aparte do deputado Andrade Lima, podemos dizer a V. Excia que
não sei se daqui a seis anos seria correto ainda responsabilizar o governo, por
exemplo do sr. Miguel Arraes, do sr. João Goulart por todos os desacertos que
foram cometidos e que nós estamos sentindo seus efeitos: porém, atualmente, é
corretíssimo. É atualíssimo, que se responsabilize essa administração cujos
efeitos desastrados estamos todos nós vivendo e pagando seu ônus. De sorte que
o aparte do deputado Nivaldo Machado é um aparte presente. Não tem nada de
futurismo da defesa do líder da oposição. Ora o aparte que eu queria dar a V.
Excia.
Deputado Antônio Corrêa –
Deputado Mário Monteiro, V. Excia está fazendo hoje um discurso que merece todo
nosso aplauso e todo nosso apoio. Fomos daqueles que saudaram na revolução de
31 de março, o primeiro passo para a solução dos problemas básicos do povo
brasileiro, e de modo especial do pernambucano. Infelizmente, decorridos seis
meses, nós estamos sentindo na administração federal o desejo de esmagar, de
liquidar, de reduzir à expressão mais simples, o Nordeste.
Sabe V. Excia, que as indústrias
principiantes nossas estão fechando por falta de crédito. A política do Banco
do Brasil é uma política criminosa, porque está permitindo, está desenvolvendo,
está estimulando a agiotagem, emprestando dinheiro a 10% e a 15% ao mês.
Enquanto isso, o agricultor, o
pequeno industrial sofre as consequências dessa política inerte, dessa política
deflacionária. Os gêneros alimentícios sobem assustadoramente; a carne apenas
em uma semana aumentou CR$ 200 cruzeiros; sobem as passagens de ônibus, sobe o
preço da gasolina. E o homem pobre, o homem de poder aquisitivo reduzido tem
que apertar o seu cinturão: sobem os remédios; daí deputado Mário Monteiro,
acho que o discurso de V. Excia. Na tarde de hoje está sendo dos mais
oportunos, é um grito de alerta aqueles que pensam nos seus gabinetes fechados,
confortavelmente instalados, inclusive até numa temperatura amena provocada
pelos aparelhos de ar condicionado. Mas, na verdade o operário ganhando muito
menos, está muito mais sacrificado, o homem da classe média não tem sequer
dinheiro para comprar uma gravata. Tudo isso decorrência, tudo isso produto,
dessa política financeira suicida levantada pelo governo. E, o homem dos
córregos e o homem dos morros é a maior vítima.
E, V. Excia, como um de seus
representantes, não poderia ter outra atitude senão esta. A advertir, a de
chamar a atenção, a de chamar à responsabilidade. Para que amanhã se esse país
marchar para a degringolada, ou para o
caos, não pesar na sua consciência a responsabilidade de dentro do possível ter
estilizado usando a tribuna, que é a arma do parlamentar, para mostrar os
Poderes Públicos como eles estão errados. Aceite V. Excia, a minha irrestrita
solidariedade ao discurso de V. Excia.
Deputado Mário Monteiro – Quero agradecer a colaboração que V. Excia dada ao discurso que pronuncia. Mas, Sr. Presidente, senhores deputados, nós que neste parlamento concorremos para esse estado de coisa, temos o dever, e, sobretudo a obrigação de cobrar dos poderes constituídos dias melhores para nossos coirmãos, e ao encerrar as minhas considerações, renovo aqui esta advertência. Advertência que faço ao Sr. Presidente da República, aos governadores de Estado e às classes produtoras do Brasil.
O Presidente da República, João Goulart e o Governador de Pernambuco, Miguel Arraes foram depostos em 2/4/1964, pelo Regime Militar. Foto: Jornal do Comércio/Recife*O Deputado Mário Monteiro de
Melo, era médico, foi vereador, e mantinha um consultório médico no bairro de
Casa Amarela onde atendia a população pobre gratuitamente. Quando estava preste
a assumir o seu quinto mandato como
deputado estadual, foi internado e veio a falecer no dia 13 de fevereiro de
1979, vítima de edema pulmonar, foi sepultado no Cemitério de Casa Amarela,
deixando 25 filhos. Um de seus filhos era o vereador Carlos Monteiro.
*Durante esse histórico discurso,
o Presidente do Brasil era o General Humberto Castelo Branco e o Governador de
Pernambuco era Paulo Pessoa Guerra. Antes, o Presidente da República era João
Belchior Marques Goulart e o Governador de Pernambuco era Miguel Arraes de
Alencar, ambos foram depostos durante a Ditadura Militar no dia 2 de abril de
1964.
Por: Jânio Odon/BLOG VOZES DA
ZONA NORTE.
Fonte: Diário Oficial de
Pernambuco e Diário da Manha/Cepe.
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